Jornal do Brasil

Sexta-feira, 25 de Abril de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

Se 2013 foi o ano do "Acorda!", 2014 tem de ser o ano do "Basta!"

Jornal do Brasil*Mônica Francisco

Mais um ano se vai e, mais uma vez, estamos na ansiedade e expectativa de um novo ano que está às portas. Sonhos, desejos e expectativas. Tudo isso é parte do pacote. Assim esperamos que o que foi frustração, desesperança ou tristeza converta-se na resposta do coração. Nós aqui na favela, esperamos que o respeito, a dignidade, o direito à moradia, à segurança bem como à saúde, educação e ao lazer sejam como condicionantes para que a vivência plena da cidadania se concretize de fato, e não em fábulas eleitoreiras e combinações que só produzem resultados unilaterais.

Este artigo, escrito no apagar das luzes de 2013, está cheio de esperança, e isso porque sou otimista, tenho fé. Mas não sem preocupação. Uma fala tem sido recorrente de minha parte e é isso que me preocupa.Tenho dito que às vezes dá vontade de ir embora, de sair do Brasil, sabe. Não por sonhos mirabolantes de enriquecimento ou prosperidade, mas por tristeza e, às vezes, desesperança até, diante das verdades aterradoras que fazem parte da realidade deste país. Uma destas verdades é a de que vivemos em um país racista onde o "rolezinho" no shopping atrai os homens da lei, geram catarse coletiva e aplausos aos capitães do mato que exibem mais uma leva de "escravos" capturados garantindo a segurança da corte. Nojo.

Mônica Francisco
Mônica Francisco

Um país em que droga em propriedade de político, branco, homem da elite e com um depoimento negativo torna-se verdade absoluta, não gera notícia vendável e nem ousem investigar, é inocente e pronto. Tudo isso enquanto o negro na favela sem nenhuma droga na mão fica vendido ao depoimento do agente que, amparado pela fé pública, diz que tinha droga, armas e munição e ainda tentou atacá-lo. Para este, adeus. Dói saber que esta é a mais pura verdade, que é irrevogável e quase com status de uma infalibilidade papal. Sorte terá o indivíduo que continuar vivo. Nada não, era mais um guri que ainda pergunta por que recebeu uma bala, sem esquecer de seu lugar, nem a ânsia da morte o faz esquecer de como usar o pronome de tratamento.

Neste mesmo Brasil, enfermeiros bombeiam oxigênio com as mãos em um revezamento em desesperado esforço para manter vivo um paciente. Uma vida, uma história, uma família, um ser humano. Somos a 6ª economia do mundo. Desculpem-me os leitores, mas se 2013 foi o ano do "Acorda", 2014 tem de ser o ano do "Basta!". Assim mesmo com maiúscula, que a gente não tá pra brincadeira. Ainda mais com o cenário mais do que digno de um daqueles enredos mirabolantes do seriado vingativo, enlatado americano. A família volta para tentar retomar o palácio. Quem viver verá!

Espero viver bastante e não ver. Feliz Ano Novo!

"A nossa luta na favela é todo dia e toda hora, favela é cidade,não à gentrificação e à REMOÇÃO!!"

 *Representante da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e Licencianda em Ciências Sociais pela UERJ.

Tags: Borel, coluna, comunidade, Francisco, monica, pauta

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