Jornal do Brasil

Sexta-feira, 25 de Abril de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

A nossa Luta é Todo Dia, Favela Não é Mercadoria!

Jornal do Brasil*Mônica Francisco

Este foi um ano pra ficar no coração. Histórico. Nunca mais falaremos de 2013 sem mencionar as manifestações de Junho, os movimentos Passe Livre; Catraca Livre; Fora Cabral; Fora Feliciano; Saímos do Facebook; a turma do midialivrismo nunca esteve tão em alta: Mídia Ninja; Coletivo Mariachi; Rafucko e tantas outras iniciativas que deram uma cara nova ao registro e veiculação das notícias e mexeram com a mídia oficial conservadora e modorrenta, confortável em seus status de absoluta. Inesquecível a entrevista dos midialivristas ao programa Roda Viva.

Mônica Francisco
Mônica Francisco

Por aqui, nas margens, pioneiros, Vírus Planetário e Nova Democracia, além do fenomenal cartunista Latuff, fizeram e fazem a diferença em retratar o lado B das notícias em favelas, e algumas, quase em tempo real no caso do Nova Democracia.

Em abril, o assassinato por policiais da UPP do jovem Alielson Nogueira, com apenas 21 anos e que acabava de comprar seu cachorro quente e ansioso por chegar em casa e descansar para mais um dia seguinte de luta pra manter sua jovem família, ainda é presente. Assim como também é presente em tempos de democracia, a tortura e os desaparecimentos, como o de Amarildo de Souza, da Rocinha. Aliás, o desaparecimento do pedreiro se tornou um grito na boca do país que foi às ruas e fez o país se surpreender com a tão perfeita paz carioca. A favela pautou as ruas do país em um grito personalizado, mas que gritava na figura de Amarildo por todos os seus desaparecidos.

Atos na Rocinha pelo saneamento básico e contra o Teleférico; ato no Santa Marta por saneamento, mobilidade, tarifas justas pelo fornecimento de energia. Na Vila Autódromo; Horto; Indiana; Pico do Santa Marta; Manguinhos e Providência pelo direito de Morar, assim com maiúscula mesmo. Os/as jovens da favela foram para as ruas, disseram que a favela – ao contrário do gigante – nunca dormiu, até porque a polícia instigada pela sociedade e pelo dever de estancar o mal nunca deixou a favela dormir. E nunca dormiu porque tem que pegar água antes do amanhecer e ir trabalhar depois. Porque falta luz e não consegue dormir e, porque na favela quando falta luz não se tem previsão de conserto.

O calor é de matar, sem falar nos tiroteios e helicópteros às 5 ou 6 da manhã, isso quando não são inseridos em jogos reais de combate que dão inveja a qualquer outro das ficções reais, destelhando casas, ou sendo acordados com um pé na porta. Você já foi acordado por um homem armado até os dentes, de touca ninja e com pouca disposição para conversa? Eu já.

2013 vai nos deixando. Com a ressaca das últimas chuvas e cenas familiares e nada agradáveis dos seus efeitos e ainda digerindo o descaso, ou melhor, o pouco caso no episódio das 10 mortes na Maré, dez histórias interrompidas. Não sabemos do Amarildo ainda, sem contar os outros tantos desaparecidos, que já são mais do que os da vigência do Regime ditatorial segundo a OAB.

Foi um ano para refletir o nível de desprezo e arrogância que marcam a personalidade de nossos dirigentes. Mas lembramos para nos animar e criar estratégias para evitar que mais ações desse tipo aconteçam. Nesta retrospectiva lembramos os 5 anos da morte de Matheus Rodrigues Carvalho, de 8 anos na Baixa do Sapateiro, o da moeda de um real na mãozinha. São também 10 anos da Chacina do Borel e 20 anos das Chacina da Candelária e Vigário Geral.

Apesar de tudo, foi um ano de muita luta e muito vigor em que a produção nas artes e no conhecimento foram fantásticas. Boreart, a galeria de arte à céu aberto, fruto da Agência de Redes para a Juventude no Borel, inaugurada em 25 de Maio de 2013 e criada pelo grafiteiro Fred Castilho, 28 anos, morador do Borel abriu a casa dos moradores e fez gente circular por um Borel mais colorido e cheio de arte. No Alemão, o Vamos Desenrolar Produção do Conhecimento e Memórias, no último dia 7 de Dezembro, o projeto Circulando, Diálogo e Comunicação na Favela por Direitos em dia 9 de Novembro articulou cultura e comunicação envolveu instituições e parceiros externos e internos na luta pelos Direitos Humanos.

Mesmo com a escada icônica do abandono e do descaso e desprezo pela arte que vem da margem sendo destruída pelo trator voraz, a arte favelada vive e marca 2013. Pedagogia da Autonomia, a voz do Raper Fiell do Santa Marta, também criador da cartilha do Santa Marta sobre abordagens policias que completou 5 anos. As mulheres se organizando pelo direito de empreender e continuar vivendo e empreendendo na favela, assim o Projeto Mulheres em Rede Tecendo Solidariedade e Conhecimento vai deixando sua marca.

Favela não se Cala, Rocinha Sem Fronteiras, Ocupa Borel e Ocupa Alemão, que completaram um ano. Manguinhos com seu jornal, Itamar Silva, jornalista e diretor do IBASE, um dos grandes referenciais na luta comunitária, e morador do Santa Marta recebeu prêmio por sua atuação na luta pelo direito dos favelados.

Assim, o ano se vai, a favela se pauta, resiste e se organiza. Produz cada vez mais intelectuais de fato e orgânicos, aguerridos na luta pela consolidação de seu lugar como cidade.Que venha 2014 com todas as suas contradições surpresas,

" A nossa Luta é Todo Dia Favela Não é Mercadoria. Favela é Cidade, não à Remoção"

*Representante da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e Licencianda em Ciências Sociais pela UERJ. 

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