Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Abril de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

Documentário lembra a resistência contra as remoções

Jornal do BrasilMônica Francisco*

No último Sábado,dia 14/12,foi apresentado às comunidades de Borel e Indiana a pré-estréia do documentário "Magarinos Torres - advogado do morro", que será lançado em 2014.O documentário resgata a história do advogado Magarinos Torres, personagem central na resistência contra as remoções de favelas promovidas pelo governo nos anos 1950 e 1960. Magarinos fundou a União dos Trabalhadores Favelados e se tornou uma referência em dezenas de comunidades cariocas, entre elas o Morro do Borel e o Parque União, no Complexo da Maré.

Mônica Francisco
Mônica Francisco

Nestes tempos sombrios para muitas favelas cariocas, ameaçadas pelo espectro das remoções, com alta aprovação de grande parte da sociedade pautada pelo desconhecimento do que de fato representa no cotidiano esta ação na vida de milhares de pessoas e famílias.Setores da mídia,promovem verdadeiras campanhas pró remoção, e alardeiam a gentrificação como se fora o último "grito" da moda e não mostram a verdade da devastação de histórias e memórias de muitas gerações,que atravessam a história da própria constituição da cidade,do Estado e de nossa nação

O filme foi exibido com apoio do projeto“Cinemão – Veículo de Ocupação Tática da Cultura”, que usa o cinema como ferramenta de inclusão, visibilidade e protagonismo para grupos de baixa renda.Com o apoio do Ministério da Cultura. Contando com a direção de Ludmila Curi,jornalista e documentarista e contou com a presença de antigos e novos atores da história do Borel.

Moradores do Borel assistem ao documentário sobre remoções
Moradores do Borel assistem ao documentário sobre remoções

Procurei colher um pouco do sentimento dos pesquisadores e organizadores do filme,Mauro Amoroso,doutor em História pelo CPDOC?FGV,professor da Faculdade de Educação da Baixada?FEBF/UERJ e Universidade Cândido Mendes e Rafael Soares Gonçalves,Advogado, mestre e doutor em História pela Universidade de Paris VII, Pós-doutor pela EHESS. Professor da PUC-Rio.

Segundo Amoroso,a motivação para fazer o filme é que se traduz em uma forma de provocar o debate em torno da própria figura do Magarinos, que não é um nome muito conhecido. Pensar a trajetória do "advogado do morro" é refletir sobre como os moradores de favelas podem buscar garantias de acesso a direitos e caminhos para o seu reconhecimento perante a sociedade em primeiro lugar. Segundo, pela possibilidade do historiador construir outras formas de narrativas históricas para além da linguagem acadêmica. O documentário é uma maneira muito interessante para levarmos nossas pesquisas para diferentes tipos de público e, com isso, termos acesso às mais diversas reações ao nosso trabalho.  

Moradores do Borel e Indiana estiveram presentes à exibição. Segundo Amoroso o avanço real para além da infra-estrutura,algo que tenho observado com muito interesse é no que se refere as formas de articulação e mobilização política. Não vivemos um momento repressivo da mesma intensidade da ditadura militar, mas temos uma democracia que tem se revelado bastante falha em garantir direitos básicos, inclusive o de manifestação política (para não se falar de outras ausências mais graves). Mesmo com todos esses desafios, a mobilização política nas favelas têm ocorrido de forma muito rica, utilizando-se dos meios de comunicação e com a participação de diferentes sujeitos e através de distintas formas de institucionalização. Claro que não é um universo perfeito, pois mostra picos de maior ou menor participação, falta de articulação e disputas internas. Mas ainda assim, considero um ganho, principalmente pela riqueza de organizações e de suas diferentes atividades.   

Para o professor a maior contribuição de Magarinos foi mostrar a importância da mobilização e da articulação interna do movimento de moradores de favelas, estando embasada em uma proposta política sólida de transformação do espaço urbano e de garantia de direitos. 

Documentário despertou interesse também do público infantil
Documentário despertou interesse também do público infantil

Em relação à remoções ontem e hoje sua análise é de que a grande semelhança é a questão da arbitrariedade, da falta de valorizar a moradia como um investimento pessoal, não apenas material, mas sentimental. Além da participação questionável do poder público, que, muitas vezes, acaba sendo mais um agente promotor da segregação espacial em nossa cidade. Uma diferença, que reforça um aspecto negativo, na verdade, é o contexto político. As principais remoções do período militar (sendo importante deixar claro que elas começaram bem antes de 1964) ocorreram em 1969 e 1970, ou seja, no auge da repressão. É no mínimo irônico, para não se dizer outra coisa, que as remoções continuem sendo um problema concreto nos dias de hoje, décadas após a permissão da alvenaria e a sinalização do poder público investir na urbanização. E o pior, um problema movido a interesses do capital imobiliário e de um projeto de cidade extremamente segregacionista.

 Mais do que nunca a favela não se cala ante ao grande movimento orquestrado por poderosos setores da sociedade.Há um movimento subterrâneo vivo, que à despeito do refinamento nas ações de repressão á cultura,moradia e sociabilidade vem também se refinando, até porque se reinventar pra sobreviver é a marca da favela.

"A nossa luta é todo dia.Favela é Cidade e não Mercadoria.Não à Remoção"

*Monica Francisco é representante da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e Licencianda em Ciências Sociais pela UERJ.

Tags: a permissão, alvenaria, após, da, décadas, e a, sinalização

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.