Jornal do Brasil

Quinta-feira, 24 de Abril de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

Ocupa Borel - um grito de liberdade

Jornal do BrasilMônica Francisco*

Na última quinta-feira, 5 de dezembro, relembramos um momento especial para a história de duas grandes favelas do Rio de Janeiro. Há exatamente um ano, aconteciam os "Ocupas Borel e Alemão", simultaneamente. Os "Ocupas" foram a expressão da revolta de uma população que não aceita mais – e já venho escrevendo sobre isso aqui – ser tratada como cidadãos e cidadãs de segunda classe e sistematicamente e de forma desrespeitosa, terem suas dores e  queixas diminuídas e invisibilizadas todos os dias.

Mônica Francisco
Mônica Francisco

Após a imposição de um toque de recolher, coisa que não mais pensaríamos acontecer em uma favela ocupada militarmente, sem nenhuma explicação até a presente data, a população foi para a rua dizer que não aceitaria mais arbitrariedades, ainda mais com o discurso estatal que era proferido e ainda o é, de que a população estaria "livre" de qualquer abuso e poderia exercer sua cidadania, tendo como marca maior a garantia do direito de ir e vir. Foi a gota d’água para uma ação singular, que reuniu acadêmicos,imprensa,instituições de defesa dos Direitos Humanos e muitos moradores(as).

Não adianta diminuir a sensação de violência com a diáspora marginal que diminui as taxas em uma área e faz aumentar em outras,com o apoio irrestrito de setores importantes da sociedade,que fazem um paredão e impedem que a voz da realidade de quem vive nas favelas chegue de fato.Como todo cidadão e cidadã deste país agente não quer só ausência de tiroteios,até porque as armas ainda estão presentes e elas demonstram que a paz é frágil.O que queremos todos é uma cidade que dê a possibilidade aos seus habitantes de viverem-na de forma igual com os mesmos direitos.

Manifestantes protestam no Borel
Manifestantes protestam no Borel

A participação ativa da juventude foi marca dos "Ocupas", pois ao contrário do que se apregoa, a juventude que vive nas favelas não está impregnada da cultura do tráfico, seja o que for que esta afirmação queira dizer. São muitas as juventudes que compõem nossa sociedade, e no caso das favelas é um crime, aí sim, olhá-las de forma tão reducionista. Os jovens da favela estão articulados com outros movimentos sociais e pensando a cidade e a favela como partes constitutivas de um todo e não de forma descolada e deslocadas uma da outra.

Isto está presente na fala do jovem articulador do Movimento de Resistência Popular (MRP). Uma carta redigida pela Rede de Instituições do Borel foi redigida e endereçada à Secretaria de Segurança. No Alemão também fizeram uma carta com o mesmo fim e até hoje nenhuma resposta foi dada. Não vou me alongar. Abro caminho para as vozes que fizeram parte destas duas ações, que mais do que um ato pontual, se tornou um Movimento Social e atua como mobilizador na garantia dos Direitos Humanos, articulado com outros movimentos e instituições do Estado.

"Acredito que o ato do OCUPA BOREL, foi um grito de liberdade e justiça. Liberdade de simplesmente exercer nosso direito de ir e vir e Justiça por lutarmos por esse direito. Com a entrada de UPPS nas favelas, vêm também as restrições que nós moradores sofremos e isso não é publicado ou divulgado na mídia. Foi um ato lindo e emocionante, onde todos os envolvidos, direta e indiretamente, estavam inflamados, inflamados por dizer: ei! Aqui moram pessoas, seres humanos, favelados sim! E não somos animais que a segurança pública diz a hora de entrar para casa! Creio que abordagens abusivas; abuso de autoridade e as humilhações sofridas pelos abordados pelas autoridades policiais, não sejam de fato atitudes de uma polícia PACIFICADORA! Não seja a intenção de pacificação e isso é muito grave e acontece com frequência nos territórios pacificados. Minha participação foi importante, porém fiz o meu dever de cidadã que tem direito a cidade, e quer que os moradores do Borel tenham também. Depois do ato ainda tivemos alguns casos conturbados de relacionamento entre polícia e moradores, mas acho que a nossa mensagem foi transmitida, acredito que tenha muito que melhorar, mas já sabem que nós sabemos de nossos direitos e não estamos dormindo! O Ocupa ainda está vivo e está circulando em outras favelas. (Cristina Ferreira, 24 anos, Borel)

Manifestação ocupa as ruas do Borel
Manifestação ocupa as ruas do Borel

 

“O Borel, pelo sua história de luta, está sendo nosso primeiro embrião e daqui queremos levar isto para quantas comunidades e bairros foram necessários. Foi aqui também que nasceu o movimento. Pelo sucesso do Ocupa Borel, vendo ali o povo reunido, tomando a São Miguel, vendo o resultado depois, mesmo que pontual, nos deu ânimo e inspiração para pensar num movimento político de base. Logo depois vieram as manifestações de julho, que apontou mais uma vez para a necessidade de um politica de base, que gere mais participação e pressão política popular. O Ocupa Borel, como disse, foi um determinante na organização do MRP. Ali vimos o quanto o povo reunido, fazendo barulho, pode ser poderoso. A vitória foi pontual, mas serviu pra vermos um pouco o poder da mobilização popular. Creio que hoje, os soldados do Estado sabem que o Povo do Morro é chato e que vamos cobrar. Temos muita coisa a denunciar e a cobrar, mas acredito que se não fosse o aviso do Ocupa, hoje estaríamos numa situação bem pior. O Ocupa nos mostrou que é possível organizar o povo politicamente." (Kennedy Donato , 27 anos JOCUM/MRP, Borel)

Com a ideia do que foi o “ocupa Borel”, pensamos em fazer uma articulação conjunta, já que, as arbitrariedades são com comuns nas favelas hoje ditas “pacificadas”, eu digo isso, porque de fato não existe uma pacificação e sim uma ocupação policial, essa fala pode até já esta virando clichê, mas é o que de fato existe, principalmente quando  se fala nas práticas públicas já enraizadas nesses espaços, esta ocupação media e faz de forma equivocada e anti democrática a autorização ou não dessas atividades, quando na verdade ela deveria só fazer a segurança caso fosse solicitada, as UPP´s trazem de volta uma ditadura direta para os moradores dessas áreas, ela traz também o enfrentamento disfarçado de pacificado e sim torturador e ditatorial, principalmente com os jovens dessas localidades, e o “Ocupa Alemão” surgiu para que possamos ocupar espaços de diálogo e geográficos estratégicos para a retomada da sociabilidade desse locais, que hoje são locais criminalizados pela policia.(Maycom Brum,26 anos,morador do Complexo do Alemão)”

"Os Ocupas Alemão e Borel, foram um grito de basta por parte dos moradores de duas favelas distintas com problemas em comum, a segurança e a impunidade. Depois de mortes sem explicação; espancamentos; humilhações; assassinatos à cara limpa e toques de recolher, percebemos que talvez não fôssemos os únicos sofrendo com tudo isso, e que relativamente deveríamos lutar, e no momento em que um jovem morador do Borel me falou do que estava ocorrendo lá, logo lembrei que uma semana antes os policias militares haviam executado um homem com necessidades especiais na comunidade da fazendinha, aqui no Complexo. No mesmo dia, antes de ir ao morro dos Macacos onde estávamos trabalhando juntos num projeto, seu irmão e eu, minha ex-cunhada havia me dito que teria sofrido discriminação por causa da sua opção sexual por parte dos policiais da UPP nova Brasília. No primeiro momento seria apenas uma manifestação na Praça do Conhecimento, então reuni a galera FORTE aqui do Alemão, os midialivristas engajados nos direitos humanos e convidamos todas as ONG's para participar. Redigimos, juntos, uma carta de direitos com abaixo-assinado dos moradores e li em praça pública da favela nova Brasília. Depois disso começamos a perceber que havia surtido resultado e que da mesma forma poderíamos fazer o mesmo com outros problemas ocultados pelos órgãos públicos como lixo, as obras inacabadas do PAC, a homofobia na favela, daí virou um MOVIMENTO #OcupaAlemão. Sobre o futuro esperamos que parte do que lutamos seja pauta para Políticas Públicas vistas com mais atenção pelos nossos governantes e que seja feita uma política participativa em que os moradores das favelas cariocas possam estar também no planejamento de um RIO DE JANEIRO melhor pra todos." (Luciano Garcia, 28 anos, Complexo do Alemão)

“O Ocupa Borel foi movimento legal e legítimo, onde diversos moradores e instituições principalmente do Borel, se uniu, mostrando sua alegria, através da sua cultura com cânticos, falas, depoimentos, como também, manifestando sua indignação contra uma atitude injusta do Estado. O Borel está acordado! Que venham outros ocupas. (Jovino Neto, 47 anos,Coordenador da JOCUM, Borel)

"A nossa luta é todo dia,Favela é Cidadania e não mercadoria"

*Mônica Francisco é representante da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e Licencianda em Ciências Sociais pela UERJ. 

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