Jornal do Brasil

Quarta-feira, 16 de Abril de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele

Jornal do Brasil*Mônica Francisco

“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”. (Nelson Mandela)

Mônica Francisco
Mônica Francisco

Madiba partiu, segundo uma amiga publicou na sua página do Facebook, “finalmente alcançou a liberdade”. Mas o que uma moradora do Borel, escrevendo em uma coluna destinada a falar sobre favelas tem a ver com Nelson Mandela? Tudo! Assim, com exclamação mesmo. Mandela é um dos maiores símbolos do que a insurgência contra a loucura e o preconceito fundamentados na cor da pele do ser humano ou sua origem étnico-racial. Chorei sim, porque não sei quando teremos um líder negro de tamanha grandeza de alma novamente.

Quando fui à África, por ocasião do Fórum Social Mundial, realizado em Nairóbi no Quênia, viagem que foi possibilitada por um fundo solidário dos funcionários do Instituto Brasileiro de Análises sociais e Econômicas (Ibase) para dar aos representantes de algumas favelas, a oportunidade de participar deste importante evento, e ainda mais, acontecendo em um continente tão especial para grande parte da população brasileira, pelas razões óbvias. Acho que todos no fundo do coração, desejavam – se não ver Madiba –, pelo menos dar uma passadinha em Soweto.

Johanesburgo era apenas uma rápida estadia para fazer a conexão para Nairóbi. Pretória não aconteceu, mas pisar aquela terra vermelha – vermelha do sangue dos guerreiros e dos inocentes –, nos falou um africano me fez sentir um pouco mais perto de Mandela. Agora, mais do que nunca, evocamos a resiliência e a força de Madiba.

Há quase um mês recebemos a visita de sul-africanos, viabilizada por um grupo de acadêmicos, entre eles o historiador Mauro Amoroso da Uerj, para a exibição do documentário “Prezado Mandela”, sobre as remoções na África do sul e da resistência e conquistas dos moradores dos assentamentos e promover a troca de experiências com moradores de favelas aqui do Brasil. Como não existem coincidências, olha nós e eles mais uma vez. Isso só nos anima, em meio a tantos retrocessos de dias que parecem nos mostrar que para cada conquista, cada passo dado adiante na luta, voltamos dez casas neste tabuleiro. Sua força é vital nestes dias pra nós, Mandela.

Nestes tempos em que sonhos são derrubados por tratores em nome de um progresso e desenvolvimento que não priorizam o humano e escombros que enterram histórias, memórias e esperanças, se amontoam nas favelas e periferias, em que a juventude negra de um Brasil miscigenado e sem segregação oficial precisa fazer campanha para continuar viva. Em que os negros e negras não tem o direito de usar seus cabelos naturais em nome da “boa aparência”, sendo preteridos em vagas de emprego e as crianças sofrem a rejeição de estabelecimentos de ensino e em programas de televisão ou novelas, por causa do seu cabelo, o que continua vigorando é a exceção.

Para os pobres, no caso do Brasil, os negros e as negras em sua maioria, recaem a pesada pena da lei; a desqualificação; o deboche; o tapa na cara; a abordagem violenta; a desconfiança; a invisibilidade; a relação profissional e social mediada por vícios colonialistas; a segregação velada mas real; o nojo; a bala de fuzil; o nascimento interrompido porque a humanização das maternidades ainda não nos alcançou; a morte aos montes por causa do crack; a loucura; os manicômios; as prisões, os aterros sanitários e as favelas e periferias das grandes cidades.

Contudo, a gente continua resistindo Madiba! Impulsionados pelo seu sorriso feérico, pelas palavras abençoadas do Martim Luther King, pela força incendiária de Malcom X, pela lucidez elegante e contundente de Frantz Fanon, pela força de Angela Davis, das mães de Acari, de Vigário Geral, do Borel, das favelas e dos guetos deste país e pela juventude da favela que é única em produzir beleza, força e cultura. Te reverenciamos neste dia, descanse em paz, que nós aqui ainda temos muito que lutar.

“A nossa luta é todo dia, favela não é mercadoria”.

*Representante da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e Licencianda em Ciências Sociais pela UERJ.

Tags: a gente, continua, contudo, madiba, resistindo

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