Jornal do Brasil

Quarta-feira, 23 de Abril de 2014

Colunistas - Comunidade em pauta

As mulheres das favelas e as soluções que não priorizam o ser humano

Jornal do BrasilMônica Francisco *

Já é possível afirmar que o processo de transformação pelo qual a cidade do Rio de Janeiro vem passando seja igual ou maior que a reforma capitaneada pelo engenheiro e então prefeito Pereira Passos (1902-1906) com a sua grande remodelação da cidade a fim de colocá-la em pé de igualdade com as grandes metrópoles europeias. Até aí, problema algum. Todos queremos morar em cidades que atendam às necessidades de seus habitantes. A grande questão é que estamos falando de soluções que quase nunca priorizam o humano.

Os que anseiam por uma cidade mais parecida com um Leblon ampliado, aplaudem. Aqueles que torcem por uma cidade em que o diferente fique bem longe, com direito à cerceamento de circulação, com direito à vistoria em ônibus de locais específicos da cidade, em que a maioria da população seja composta de trabalhadores mestiços e negros, dão vivas à eficiência destas ações. Nestes tempos de pacificação e transformação da cidade, uma palavra tem povoado nosso cotidiano, a gentrificação. Trata-se do processo de transformação de áreas degradadas em que, consequentemente, sua população nativa acaba sendo trocada por novos habitantes, com maior poder aquisitivo, fazendo mudar completamente toda a cultura e identidade e dinâmicas do local.

Mônica Francisco
Mônica Francisco

Como afirma Marize Cunha, doutora em educação e pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), sobre o processo que ela chama de “desenraizamento”, em que as/os moradoras/es “vivenciam a experiência comum de sobreviver em uma cidade que tenta excluí-los e limitar seu deslocamento” compartilham modos de vida e estratégias de sobrevivência, que tornam possível a vida na cidade, como o cuidado dos filhos; os serviços de infraestrutura urbana e os equipamentos domésticos. Enraízam-se. E ao fazê-lo, humanizam aquele espaço que um dia esteve abandonado, tornaram-no um lugar que não pode ser arrastado. Desta forma, a experiência do “desenraizamento” transforma-se em uma das mais violentas para a humanidade.

Neste contexto, se o morador da favela é tratado como ser invisível na cidade, para as mulheres das favelas a questão é ainda mais séria. Nas favelas pacificadas, as mulheres que empreendem e dão condições a suas famílias de permanecerem em seus locais de moradia –que mais do que moradia, são locais de afetos e de pertencimento –, são o alvo do Projeto Mulheres em Rede Tecendo Teias de Solidariedade e Conhecimento, que iniciou suas ações no Borel e no Cantagalo/Pavão-Pavãozinho. Coordenado pela ONG Assessoria, Planejamento e Desenvolvimento (Asplande), apoiado pela Petrobras e em parceria com a Associação das Costureiras do Cantagalo e do Grupo de Mulheres Arteiras da Tijuca, pretende a partir das ações desenvolvidas para formação em gestão dos negócios das mulheres empreendedoras e moradoras das favelas pacificadas, dar suporte técnico, com a linguagem mais acessível possível e de maneira diferenciada.

Um aporte necessário para que as mulheres e seus negócios sobrevivam ao avanço dos grandes empreendimentos que tem chegado às favelas, com a especulação imobiliária e a gana de abocanhar uma fatia do tão alardeado “PIB das favelas”, cerca de 56,1 bilhões segundo o DataFavela. Mais que a questão da sobrevivência, o direito de permanecer no seu lugar, de gerar nele renda e trabalho para outras mulheres e para que mesmo com o encarecimento da vida na favela, suas famílias possam permanecer e manter as características e laços que construíram sua identidade.

“A nossa luta é todo dia, favela não é mercadoria.”

*Representante da Rede de Instituições do Borel, Coordenadora do Grupo Arteiras e Licencianda em Ciências Sociais pela UERJ.

Tags: Borel, brasil, comunidade, monica, Negro, pauta

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