Jornal do Brasil

Visto de Fora

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Miguel Paiva

O preço do passado

Jornal do Brasil

Era a primeira vez que ela revia esses objetos do seu passado. Espalhou tudo no pequeno jardim nos fundos da casa, à sombra da mangueira que já não dava mais manga e começou a garimpar. Quando encontrou os bibelôs abriu um sorriso. Além de trazerem de volta a beleza de cada boneco trouxe também a certeza de que aquilo valia algum dinheiro...quem sabe? Estavam bem conservados por conta da dedicação da avó em mantê-los limpos e brilhantes. Colocou em fila os personagens que tocavam flautas, carregavam bolsas ou dançavam como se fossem um exército do bem de soldadinhos inocentes.
Continuou abrindo. Deu de cara com velhos chapéus de feltro, de palha, com plumas e sedas de sua tia Amélia que adorava desfilar aos domingos pelas ruas do centro. Alguns tinham perdido o tule ou os laços mas davam para ser recuperados. Sua tia Amélia era a louca da família. Louca no bom sentido. Era a solteirona feliz, a que saía todas as noites, a mal falada no bairro. Às vezes saía junto com Roberta, a vizinha desquitada, mais mal falada que Amélia.
Seus sapatos também eram lindos. Saltos grossos e altos forrados de seda ou de veludo. Eram pequenos como era pequena a tia Amélia. Uma vez conversaram sobre suas aventuras amorosas. Ela ainda não entendia muito bem e Amélia soube medir o que contava, mas não conseguiu evitar a fantasia criada na conversa.
Na outra caixa só encontrou quinquilharias. Copos antigos, toalhinhas bordadas, cinzeiros, canetas de pena, um enorme leão de bronze com dois tinteiros, uma bola de vidro com uma tempestade de neve dentro e uma caixa de botões.
Os carrinhos do seu tio Nelson estavam todos enfileirados no fundo de uma das caixas. Eram de lata e de ferro e alguns não evitaram a ferrugem, mas mantinham a nobreza das velhas limusines e dos pequenos caminhões com carroceria de madeira. Tirou todos da caixa e os recolocou como num estacionamento no gramado ao lado. Alguns sumiam na grama alta e descuidada.

Macaque in the trees
Coluna - Miguel Paiva - Visto de Fora (Foto: Miguel Paiva)

Na última caixa achou o que queria, as joias de sua avó. Sabia que não eram valiosas, mas eram lindas: broches de prata, anéis de brilhante, pulseiras e colares de pérolas. Tudo guardado na caixinha de música que ela namorava desde criança quando conseguia entrar escondida no quarto da avó. A bailarina ainda girava enquanto a caixinha tocava “Clair de lune” quando era aberta. Ela deixou a moça girar por um bom tempo lembrando da avó usando as joias e se vestindo diante da penteadeira de espelho bisotado.
A bailarina girou e a musiquinha tocou até o limite da corda e aí desafinou. Ela tirou tudo da caixa, colocou num saco e mudou sua feição. Rapidamente recolheu o que havia achado e separado.
No dia seguinte estacionou seu Gol na Avenida Epitácio Pessoa, ali na reta de Ipanema, com a tampa da mala levantada. Dispôs todos os objetos antigos que achara na casa da avó sobre um tecido preto que cobria o fundo da mala do carro. Ao lado dela um carro, também com a tampa da mala levantada, exibia uma placa para que todos enxergassem: “Quentinha mais Guaraplus, dez reais”. Ela sorriu pensando que poderia trocar um bibelô por um arroz de forno e ficou tranquila com o almoço garantido. Afinal nem só de comida as pessoas se alimentam. Objetos antigos têm seu valor. Ela ia descobrir.



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