Jornal do Brasil

Sexta-feira, 19 de Setembro de 2014

Coisas da Política

Jonas e o vácuo 

Paulo Rosenbaum - médico e escritor 

É  possível sobreviver no ventre de um grande animal marinho? James Bartley sobreviveu 15 horas nas entranhas de um cachalote nas ilhas Malvinas em 1891, e um marinheiro inglês foi resgatado depois de passar 48 horas dentro de um tubarão baleia. Isso importa menos do que o simbolismo dos depoimentos de um personagem considerado “solto no ar” pelos exegetas bíblicos.

Passou quase despercebido, mas os adoradores do terror do Ísis acabam de anunciar a destruição da tumba de Jonas, que se encontrava em uma mesquita construída sobre o que já abrigara uma igreja desde o século 8 no Iraque. O simbolismo é significativo. Jonas é o profeta que dá nome ao livro bíblico reconhecido por todas as tradições monoteístas: cristãos, judeus e muçulmanos. 

A narrativa explica que Jonas sobreviveu por quase três dias nas entranhas dum monstro marinho, o qual poderia ser a baleia. Esse profeta, mesmo não sendo economista, era um daqueles sujeitos torturados pela constante sensação de vislumbrar o futuro. Ele não ameaçava, insistia em persuadir a humanidade a abandonar pequenos narcisismos. Em outras palavras, que recuperasse os sentidos, a fração justa, algum superego.  Denunciava a crueldade entre os povos, dos assírios, dos habitantes de Nínive, das pessoas que habitavam o Mediterrâneo.

Jonas, em oposição ao catastrofismo inexorável dos oráculos e de outros alarmistas, formulava previsões condicionais: as imprecações vinham junto com a torcida para que não precisassem se realizar. Parece estranho, mas faz todo sentido. 

Para ele, Deus não poderia ser uma entidade nacional, partisã, ou exclusividade de um só povo.  O mais provável é que o Criador fosse uma entidade universal, acessível e sensível. É como se não fizesse sentido que a salvação precisasse ser a virtude de uns em detrimento dos outros.  

Parece que a mais nova neovertente, o Ísis, também conhecido como Califado da Retidão, a quem agradeço de coração por poder reestudar este sábio bíblico, assim como outros grupos fundamentalistas islâmicos fazem suas marchas determinados: contra a diversidade. Não suportam a vasta e desconcertante pluralidade deste fim da pós-modernidade. 

A passagem de uma sociedade oprimida por ditadores sanguinários para a liberdade  ensejou, para desgosto do neopopulismo da esquerda latino-americana, não uma primavera mas longo inverno de lutas tribais. 

Financiadas por regimes inteiros, e subsidiadas por milionários do ramo da indústria do petróleo, ficaram férteis e belicosos. Represadas por séculos, elas agora encontram o corredor aberto para extravasar e se esparramar  por vários continentes. As civilizações podem não estar em rota de colisão, enquanto o hiato parece claro.  Tomara que regressem do vácuo, com alguma criatividade. Urge que façamos ressurgir um novo renascimento. 

Tags: animal marinho, cristãos, judeus, muçulmanos, Petróleo, ventre

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