Jornal do Brasil

Sexta-feira, 28 de Novembro de 2014

Coisas da Política

Onde Jonas foi parar?

Paulo Rosenbaum - médico e escritor 

É possível sobreviver no ventre de um grande animal marinho? James Bartley sobreviveu 15 horas nas entranhas de um cachalote nas ilhas Malvinas em 1891, e um marinheiro inglês foi resgatado depois de passar 48 horas dentro de um tubarão baleia. Isso importa menos do que o simbolismo dos depoimentos de um personagem considerado “solto no ar” pelos exegetas bíblicos.

Passou quase despercebido, mas os adoradores do terror do Ísis acabam de anunciar a destruição da tumba de Jonas, que se encontrava em uma mesquita construída sobre o que já abrigara uma igreja desde o século 8 no Iraque. O simbolismo é significativo. Jonas é o profeta que dá nome a um livro bíblico reconhecido por muçulmanos, cristãos e judeus.

Aquele que sobreviveu por quase três dias nas entranhas dum monstro marinho, que poderia ser a baleia. Esse profeta, mesmo não sendo economista, era daqueles sujeitos torturados pela constante sensação de conhecer o futuro. Ele não ameaçava, mas insistia em persuadir a humanidade a abandonar os pequenos narcisismos. Em outras palavras, que recuperasse a fração justa do superego. O que Jonas denunciava era a crueldade, dos assírios, dos habitantes de Nínive, e das pessoas que habitavam o Mediterrâneo. É que Jonas, em oposição ao catastrofismo inexorável dos oráculos e de outros alarmistas, trazia previsões condicionais — era como se torcessem para que não se realizassem. Parece estranho, mas faz todo sentido.

Para Jonas, Deus não poderia ser uma entidade partidária, nacional, partisã, ou exclusivista.  O mais provável é que o Criador fosse uma entidade universal, acessível e sensível. É como se não fizesse sentido que a salvação precisasse ser a virtude de uns em detrimento dos outros.   

Parece que a mais nova neovertente, o Ísis, também conhecido como “Califado da Retidão”, a quem agradeço de coração por poder reestudar este sábio bíblico, assim como outros grupos fundamentalistas islâmicos marcham contra a diversidade. Não suportam a vasta e desconcertante pluralidade deste fim da pós-modernidade.

A passagem de uma sociedade oprimida por ditadores sanguinários para a liberdade  ensejou, para desgosto do neopopulismo da esquerda latino-americana, não uma primavera mas um longo inverno de lutas tribais.

Financiadas por regimes inteiros, e subsidiadas por milionários do ramo da indústria do petróleo, elas ficaram férteis. Represadas por séculos, elas agora encontram o corredor aberto para extravasar e se esparramar  por vários continentes. As civilizações podem não estar em rota de colisão, mas parece claro que entraram num recesso. Tomara que regressem das férias com alguma criatividade.          

Tags: baleia, exegetas, Malvinas, sobreviver, ventre

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.