Jornal do Brasil

Quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

Coisas da Política

Nenhum homem é uma ilha?

Paulo Rosenbaum - médico e escritor

“Nenhum homem é uma ilha” — diz o poema de John Donne. Mas às vezes, é assim que nos sentimos. Já passou do tempo. A proporção de forças díspares vem sendo discutida. O Conselho de Segurança falou, tá falado. Mas a abstração de teoremas desaparecem na extensão das coisas terrenas. Serve para Gaza, Ucrânia, França, América Latina, Rússia, Sudão, Cuba ou Taiwan. Não importa a latitude. Nada do que se passa parece razoável. Como dizer sem confessar ser parte do problema?

Mas é literal: compartilhamos o mesmíssimo barco. A desproporcionalidade, a injustiça e o abandono estão na ignorância. As pessoas não odeiam país A, B ou C, elas só não sabem o significado de cada um deles. Como toda luta contra forças talhadas pela obscuridade, só podemos golpear o ar. A batalha pelo ciberspace, mais plástica, mais rápida, mais mentirosa. O verdadeiro conflito protegido pelos bastidores: Catar e Turquia versus Egito e Arábia Saudita. A mídia desfigura reputações, e a retratação, tardia, só refaz superfícies. 

É tão difícil assim entender que ser contra a guerra não significa abdicar da obrigação de se defender? Para a maioria parece que sim, trata-se portanto de uma compreensão seletiva da realidade. Ainda bem que nunca levei fé em maiorias. Mas é claro que Israel é um caso à parte: a legítima defesa criminalizada. O contexto, abortado. Para deslegitimar testemunharam-se desvios, da razão, da civilização. Na lógica dos mísseis todos os alvos se tornaram legítimos. A rotação da esfera entrou no lado escuro, sombra e escatologia.

Chamem como quiserem, mas não existe choque entre civilizações. Há vácuo. Ele estacionou entre culturas. Ilhados e sem reparo à vista, ninguém ainda acordou para o fim da tolerância. Para bem além do antissemitismo, a guerra rola contra todos. O que explicaria cristãos carbonizados, budistas enforcados, xiitas mutilados e minorias esmagadas? O fetichismo do Ísis? A sobrenatural leniência do ocidente? A silenciosa opressão chinesa? O fantasma de uma KGB mundial no neoczarismo de Putin?

Sem muita cerimônia, tendências extremas se reagruparam no calor das oportunidades. Neonazistas respiram, separatistas picotam, jihadistas comandam, xenófofos enxotam. Não basta a complexidade da vida, agora seremos colonizados por demandas que nem escolhemos? A ideologia doutrinária se uniu aos conservadores pragmáticos. Velhos comunistas, veteranos fascistas e ideologias de antanho entraram em acordo. E por aqui? Tanto faz sininhos, peter pans, ou o exército do capitão gancho: a violência fixou-se como linguagem. Junho negro, molotovs e partidos de ação direta. É bem provável que tenhamos que financiar campanhas e pólvora com dinheiro público. E as jurisdições não alcançam as aberrações. Mereciam condenação por burrice e infração única: colaboraram para que incríveis manifestações pacíficas dessem em nada. Nem erudição nem populismo tem respostas. Os intelectuais emudeceram na ciclotimia, alimentados com subsídios do Estado. Nenhuma fonte é mais confiável.

Uma geração dividida entre subserviência e radicalismo. A critica torturada sob a positividade das convicções. A vingança virá com o centralismo partidário, revival de soviets ou golpes de Estado. Com a anomia cultivada, a censura branda vige. Nem bancos podem mais dizer o que pensam. Enfim, consenso. Todos se juntam quando o alvo são as liberdades. Eleitas como o grande perigo para o projeto. Esquerda e direita se uniram num complô contra os continentes.

Tags: campanhas, Forças, poema, pólvora, proporção, radicalismo, subserviência, Tempo

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