Jornal do Brasil

Domingo, 21 de Setembro de 2014

Coisas da Política

De cegos e de anões     

Mauro Santayana

Se não me engano, creio que foi em uma aldeia da Galícia que escutei, na década de 70, de camponês de baixíssima estatura, a história do cego e do anão que foram lançados, por um rei, dentro de um labirinto escuro e pejado de monstros. Apavorado, o cego, que não podia avançar sem a ajuda do outro, prometia-lhe toda sua fortuna, caso ficasse com ele, e, desesperado, começou a cantar árias para distraí-lo. 

O outro, ao ver que o barulho feito pelo cego iria atrair inevitavelmente os monstros, e que o cego, ao cantar cada vez mais alto, se negava a ouvi-lo, escalou, com ajuda das mãos pequenas e das fortes pernas, uma parede, e, caminhando por cima dos muros, chegou, com a  ajuda da luz da Lua, ao limite do labirinto, de onde saltou para  densa floresta, enquanto o cego, ao sentir que ele havia partido, o amaldiçoava em altos brados, sendo, por isso, rapidamente localizado e devorado pelos monstros que espreitavam do escuro.    

Ao final do relato, na taberna galega, meu interlocutor virou-se para mim, tomou um gole de vinho e, depois de limpar a boca com o braço do casaco, pontificou, sorrindo, referindo-se à sua altura: como ve usted, compañero... com o perdão de Deus e dos cegos, ainda prefiro, mil vezes, ser anão... 

Lembrei-me do episódio — e da história — ao ler sobre a convocação do embaixador brasileiro em Telaviv para consultas, devido ao massacre em Gaza, e da resposta do governo israelense, qualificando o Brasil como irrelevante, do ponto de vista geopolítico, e acusando o nosso país de ser um “anão diplomático".  

Chamar o Brasil de anão diplomático, no momento em que nosso país acaba de receber a imensa maioria dos chefes de Estado da América Latina, e os líderes de três das maiores potências espaciais e atômicas do planeta, além do presidente do país mais avançado da África, país com o qual Israel cooperava intimamente na época do Apartheid, mostra o grau de cegueira e de ignorância a que chegou Telaviv. 

O governo israelense não consegue mais enxergar além do próprio umbigo, que confunde com o microcosmo geopolítico que o cerca, impelido e dirigido pelo papel executado, como obediente cão de caça dos EUA no Oriente Médio. 

O que o impede de reconhecer a importância geopolítica brasileira, como fizeram milhões de pessoas, em todo o mundo, nos últimos dias, no contexto da criação do Banco do Brics e do Fundo de reservas do grupo, como primeiras instituições a se colocarem como alternativa ao FMI e ao Banco Mundial, é a mesma cegueira que não lhe permite ver o labirinto de morte e destruição em que se meteu Israel, no Oriente Médio, nas últimas décadas.  

Se quisessem sair do labirinto, os sionistas aprenderiam com o Brasil, país que tem profundos laços com os países árabes e uma das maiores colônias hebraicas do mundo, como se constrói a paz na diversidade, e o valor da busca pacífica da prosperidade na superação dos desafios, e da adversidade. 

O Brasil coordena, na América do Sul e na América Latina, numerosas instituições multilaterais. E coopera com os estados vizinhos — com os quais não tem conflitos  políticos ou territoriais — em áreas como a infraestrutura, a saúde, o combate à pobreza. 

No máximo, em nossa condição de “anões irrelevantes”, o que poderíamos aprender com o governo israelense, no campo da diplomacia, é como nos isolarmos de todos os povos da nossa região e engordar, cegos pela raiva e pelo preconceito, o ódio visceral de nossos vizinhos — destruindo e ocupando suas casas, bombardeando e ferindo seus pais e avós, matando e mutilando as suas mães e esposas, explodindo a cabeça de seus filhos. 

Antes de criticar a diplomacia brasileira, o porta-voz da Chancelaria israelense, Yigal Palmir, deveria ler os livros de história para constatar que, se o Brasil fosse um país irrelevante, do ponto de vista diplomático, sua nação não existiria, já que o Brasil não apenas apoiou e coordenou como também presidiu, nas Nações Unidas, com Osvaldo Aranha, a criação do Estado de Israel.  

Talvez, assim, ele também descobrisse por quais razões o país que disse ser   irrelevante foi o único da América Latina a enviar milhares de soldados à Europa para combater os genocidas   nazistas; comanda órgãos como a OMC e a FAO;  abre, todos os anos, com o discurso de seu máximo representante, a Assembleia Geral da ONU; e porque — como lembrou o ministro Luiz Alberto Figueiredo, em sua réplica — somos uma das únicas 11 nações do mundo que possuem relações diplomáticas, sem exceção,  com todos os membros da Organização das Nações Unidas.     

Tags: aldeia, aranha, camponês, diplomacia, galícia, osvaldo

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Comentários

3 comentários
  • Jose Moacir Maia Portes dos Santos

    Excelente matéria do Mauro . Já esta na hora de mostrar a estes sionistas assassinos que o mundo mudou . O Brasil tomou a decisão correta de chamar o nosso embaixador .O Brasil e um excelente fabricante de armas e deveria fornece-lãs a Palestina Na luta contra os sionistas assassinos . Por uma Gaza e Cisjordânia livres !

  • Boris Celser

    Santayana, escrevo do Canada com prazer. Vejo voce com a corda toda. E tudo culpa de Israel, como sempre. Primeiro, uma retificacao. O seu cego e o seu anao no labirinto escuro na realidade eram terroristas do Hamas, e o labirinto era realmente um tunel que levava a Israel para eles poderem cometer assassinatos. O rei que os lancou la era o chefe do Hamas, que vive em um luxuoso palacio no Qatar. Os monstros, naturalmente para te agradar, eram soldados israelenses, ajudados pela luz da Lua sionista. Mesmo que o diplomata israelense tivesse cometido uma Lulice, pelo menos nao insultou a gramatica. Acho que o Brasil, ao inves de aprender matanca com Israel, esse sim um pais fisicamente anao, deveria almejar mais e aprender como realmente se mata em paises proximos a Israel, como Libano, Siria, Iraque (o que resta dele), na teocracia iraniana, e outros luminarios da regiao, incluindo Hamas e Hizballah, sem esquecer o Sudao, favorito aliado estrategico de Celso Amorim. Mas nao adianta, Santayana, voce vai morrer frustrado e Israel vai continuar a fazer tudo que voce detesta. Incluindo sobreviver e prosperar. E obrigado pela sua frase: "Chamar o Brasil de anão diplomático, no momento em que nosso país acaba de receber a imensa maioria dos chefes de Estado da América Latina ..... mostra o grau de cegueira e de ignorância a que chegou Telaviv." De agora em diante utilizaremos o fato de tambem sermos cegos como desculpa para qualquer erro de direcao nos bombardeios. Porem, se em terra de cego quem tem um olho e rei, como e que Israel sempre ganha? Sera porque botar o umbigo de fora e permitido so em Israel? Faca-o nos paises vizinhos a ela e veja o que acontece. E sim, o Brasil constroi a paz na diversidade, mas nesse caso esses vizinhos ficam a mais de 10.000 km do Brasil. E seus objetivos sao diferentes dos nossos “hermanos”. Vamos ver os conselhos que o embaixador do Brasil em Israel vai receber no Itamaraty para ensinar a paz quando voltar. Ou ele foi chamado so para ganhar milhagem? A proposito, e direcionado somente a voce e a mais ninguem, se o Brasil nao e anao, como e que voce explica o Dunga ser tecnico nao so uma, mas duas vezes da selecao? Afinal, nao sao 7 (x 1) anoes? Sera que os outros seis estao perdidos no seu gigante e escuro labirinto brasileiro como, sei la, seis anoes em seis minutos de apagao? Mande-os a Israel, la ha sempre luz no fim do tunel, e o Bom-Senso tambem prevalece.

  • Telma Alves De Lima

    O governo israelense mais uma vez envergonha a si mesmo por sua truculência e ignorância.

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