Jornal do Brasil

Sábado, 26 de Julho de 2014

Coisas da Política

Indução à secessão 

Paulo Rosenbaum*

Pode ser elucidativo examinar a diferença entre desejar e querer. O querer opera no campo consciente, o desejo se expressa pelo inconsciente. O querer tem alguma objetividade, e o que se expressa ali é efetivamente o que está no reino da vontade dos homens.

Desejo é muito mais complicado. Quando alguém lamenta o ódio político a ponto de o tema se transformar em um caso, compêndio e tratado, correndo o risco de culminar em causa, desconfie de desejo.

Ao afirmar que sempre evitou rancor e o detestar, na verdade o sujeito acaba denunciando sua avidez pela matéria. Internamente mobilizado, está determinado a promovê-lo, implantá-lo e finalmente, talvez, desfrutar do que semeou.

Acusar incessantemente o outro de ódio desvela nossa própria hostilidade. Mas isso não é o pior. Se parte significativa dos nossos impulsos tem motivação inconsciente, o que se pode afirmar dos discursos políticos aos quais temos que nos submeter, cada vez mais, assim que os jogos acabarem? Notem que as ações propositivas estão cada vez mais escassas. Vêm sendo substituídas por culpar a outra metade. É evidente que não pode dar certo.

Todo partido que aspira a hegemonia tem sido um pouco mais pródigo nesta arte do que os outros, mas tem sido prática generalizada por aqui aprofundar a fenda para aguçar o conflito. Escondem mais que escancaram. A realidade subjetiva encontra-se oculta. Articulado atrás das aparências, o objetivo é desqualificar o adversário. Isso nos obriga ao especulativo trabalho de descriptografar o impronunciado.  De destrinchar entrelinhas. Não há um brasileiro que não se pergunte “mas o que está por trás disso?”. Nada de paranoia. É apenas a violência de mitômanos. Tudo sempre subliminar, tergiversante, escamoteado. Quem foi que falou em maracutaia? A abundância de aloprados se justifica. Preferem que a coisa volte a dar errado do que perder o pleito. Para depois assumirem a nau desgovernada como salvadores do regaço. Ou partirem para uma oposição como nunca se viu antes na história deste país.

Mas, e o Brasil? Esse não importa muito na medida em que é pauta de uma linha só: o controle da sociedade. O poder nunca foi tão cobiçável e ávido. Por que será?, me pergunto. Fama? Necessidade narcisista de comprovar que “a ideia foi minha?”, de que “só nós fizemos”?, ou apenas a nostalgia por enxergar que estamos enfim chegando a um final patético?

Chegamos a acreditar que parecia mesmo ser o fim de um longo processo que estaria retirando o país da barbárie, dragando o atraso, construindo um espaço civilizado e consistente.

Hoje, escrever se tornou perigoso. Circulam listas negras. A censura, velada, se faz por outras vias. Sempre foi perigoso, mas em nossos dias se sente na pele. Vejam que até correr por aí se tornou uma ameaça. O suspeito pode estar fugindo do crime que acabou de cometer. Foi o caso do professor quase linchado que teve o infortúnio de fazer jogging perto de onde tinha acabado de acontecer um assalto. O retardo da justiça usado como escusa para tomá-la nas próprias mãos. 

É assim que acaba se tornando preferível uma manifestação — indelicada, aberta, deselegante —  à linguagem despistadora, cabotina, que oculta significados que precisam de segredo, e por isso não podem ser expressos abertamente.

Não foi inventado por eles, porém hoje é o partido da hegemonia não declarada que insiste em nos impingir desgosto, ameaça e farsa como técnicas de domínio. Nas telas, sulcadas nos papéis, ou em mensagens inusitadas, a presença agressiva se multiplica. Mas não pensem os leitores que estarão livres só com isso. Teremos que aguentar réplicas e tréplicas. Dossiês derramados nas telas. Carranca e voz rouca colocando o dedo em riste sobre nossas caras.

Manipular sentimentos e arregimentar paixões tornou-se especialidade da casa. Um dia no futuro, a indução de uma secessão vai exigir ser periciada. Quem ganha a vida oferecendo instrumentos de propaganda para induzir choques sociais e fomentar a anomia será responsabilizado quando o pior eclodir.  Só quem sobreviver verá.   

* Paulo Rosenbaum é médico e escritor. - rosenb@netpoint.com.br

Tags: desejar, elucidativo, hegemonia, Homens, objetividade, querer, vontade

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.