Jornal do Brasil

Sábado, 25 de Outubro de 2014

Coisas da Política

A estrada para Bagdá

Mauro Santayana

Enquanto o mundo acompanha os jogos da Copa 2014, disputada no Brasil, as agências internacionais informam, em despachos urgentes, que rebeldes islâmicos sunitas se encontram a apenas algumas dezenas de quilômetros da capital iraquiana. 

Há poucos dias, combatentes  do EIIL (Estado Islâmico do Iraque e do Levante) capturaram Tikrit e Mossul, no norte do país, e em rápido avanço tomaram em seguida Raqqa, Tal Afar, Suleiman Beg e Falluja. Ontem, pela manhã, eles cercavam Baquba, que, se cair também em suas mãos, lhes dará acesso à estrada que, ao longo de 60 quilômetros, os separa dos subúrbios de Bagdá. 

Surpreendidos e desnorteados pela rapidez dos acontecimentos, os EUA, como já ocorreu antes, quando tiveram  que abandonar, ás pressas, o Vietnã e a Somália, anunciaram o envio de 275 soldados para “proteger” seu corpo diplomático — quando na verdade eles podem estar indo para lá para organizar e cobrir sua retirada —  no que pode ser o capítulo final de uma enorme tragédia que teve início com duas farsas: a do não comprovado envolvimento do regime de Saddam Hussein com os até hoje também não esclarecidos ataques de 11 de setembro de 2001; e a mentira sobre a existência, no Iraque, de “armas de destruição em massa”, que nunca  foram encontradas.

Impossibilitado, pela própria opinião pública norte-americana — que não quer nem saber de falar em guerra — de se envolver diretamente com o conflito, os Estados Unidos falam em usar  drones para atacar os rebeldes, e se dividem quanto a eventual cooperação com o vizinho Estado iraniano, que, por ser também xiita, simpatiza com o atual primeiro-ministro iraquiano, Noun Maliki.

Chega a ser irônico que os EUA, agora, falem em proteger a “estabilidade” do Iraque. A intervenção norte-americana no país não foi somente injusta, cruel, absurda e desnecessária. Ela transformou-se em um verdadeiro fiasco moral, militar e econômico para os Estados Unidos. 

No dia 16 de março de 2003, pouco tempo antes da invasão, o então vice-presidente de Bush, Dick Cheney, afirmou, em um encontro com a imprensa na Casa Branca, que a operação iria custar entre 80 e 100 bilhões de dólares, incluindo a conquista de Bagdá e a ocupação do Iraque, e dois anos de conflito. 

Dez anos depois, em maio de 2013, um estudo denominado The costs of war, do Instituto Watson de Estudos Internacionais da Universidade Brown — a sétima mais antiga dos Estados Unidos — calculou em quanto havia ficado a conta para os contribuintes: um trilhão e setecentos bilhões de dólares, mais 490 bilhões de dólares em despesas médicas e indenizações e pensões para os veteranos, que, até que essa geração desapareça, podem chegar a 6 trilhões de dólares, nos próximos 40 anos.

A isso é preciso acrescentar, segundo a organização antiwar.com, cerca de 5 mil soldados norte-americanos mortos e desaparecidos, e um número estimado de 100 mil feridos. 

As mortes diretas de iraquianos, ainda segundo o estudo da Brown, foram de 134 mil civis, número que deve ser multiplicado por 4, considerando os que morreram por ferimentos, enfermidade e fome até agora, principalmente crianças. Somando-se ao número inicial membros de “forças de segurança”, rebeldes, jornalistas e funcionários de organizações humanitárias, chega-se a um número aproximado de 189 mil vítimas.

Antes da intervenção norte-americana no Iraque, o regime de Saddam e o dos aiatolás se vigiavam mútuamente, contribuindo para manter certo equilíbrio de forças na região.

Com a destruição da nação iraquiana, os Estados Unidos – assim como estão fazendo na Ucrânia, na Síria, na Líbia – substituíram um país relativamente estável, sem grandes conflitos internos, no qual conviviam diversas etnias, por um inferno de morte e violência, do qual, como sempre, se afastaram, depois, quando a situação piorou, como se não tivessem absolutamente nada a ver com isso.

E tudo isso para quê? Para, depois de tantos anos de uma guerra tão cara como brutal, desumana e inútil, os EUA, absolutamente impotentes, verem  tropas rebeldes sunitas islâmicas – muito mais anti-EUA do que Saddam Hussein jamais foi – tomarem conta do país. 

Para, depois, correrem o risco de ter de assistir tropas do Irã – a maior potência política e militar da região – tomarem também a estrada para Bagdá, como pacificadores, entregando o Iraque, de bandeja, para um país que sempre consideraram seu arqui-inimigo naquela região.

Tags: brasil, Copa 2014, iraque, Mundo, rebeldes islâicos

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Comentários

1 comentário
  • fauzi amim salmem

    A análise está ótima. Só faltou elucubrar sobre o financiamento dos rebeldes sunitas. Penso que são as monarquias árabes, as mesmas que ferraram o também sunita Saddam, porque este as contrariou invadindo o Kwait (também monarquia). Daí que, desta vez, os belicistas americanos não irão se meter, até porque poderá interessar-lhes jogar o Irã numa guerra contra as monarquias árabes e o Iraque (tomado pelos sunitas). Assim, enfraquecido, o Irã, o grande e real inimigo de Israel, ficará presa fácil, salvo se russos e chineses entrarem no conflito. Fauzi Salmem (advogado).

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