Jornal do Brasil

Domingo, 23 de Novembro de 2014

Coisas da Política

Impressões das ruas

Paulo Rosenbaum - médico e escritor 

Confirmado. Há uma fossa, abismo, desfiladeiro, cratera ou hiato insondável entre governantes e governados. Não se trata de dialeto, parece que falamos idiomas distintos. Talvez seja mundial, galáctico, universal, mas onde a gente vive dói mais. Muito mais.

Como passageiros que somos, temos que nos perguntar por que os outros somem do nosso horizonte com tanta facilidade. Na era geral da indelicadeza, que parece estar sendo incorporada e constitutiva nas sociedades, vale a pergunta: o que sustenta essa indiferença que cresce entre nós? 

Parece estar no desejo afoito, na fixação em produtividade, nos deslocamentos incessantes, nas incertezas institucionais e nas comunicações erráticas.  

Estamos sempre, alguém à espera de alguém, para assumir a responsabilidade. Quando já se sabe: ninguém assumirá nada. As lideranças estão corroídas pela acomodação. Os direitos parecem esmagar os deveres. E ninguém pode acusá-los de ineficientes:  conseguem nos distrair com suas disputas partidárias. 

Juro que não se trata de uma assertiva moral sobre pessoas, governos ou sistemas políticos. É só uma vaga impressão sobre a realidade. O olhar fenomenológico sobre o espantoso que vai sendo naturalizado até entrar e fazer água em nosso metabolismo. 

Admito que sempre pode ter sido assim. Leiam-se relatos análogos de Sócrates e Platão. Diga-se o que quiser, mas nunca, nenhum povo ou civilização experimentou um tempo de informações e velocidade tão simultâneas como agora. Faz toda diferença.

Não é só que a pressa seja inimiga da perfeição, mas induz desprezo pela autenticidade das coisas. O resultado é nos deixar na expectativa de uma personalidade mítica ou real que aponte o caminho. Nessa altura já deveríamos saber, não há caminho, nem mito.

 O percurso sumiu porque o que passou a interessar são metas, e a redução, por simplificação, do que realmente precisamos  nas nossas vidas.

Perdoem o tom confessional, mas, agora é oficial, esgotaram-se todos os modelos. Não se pode mais suportar alinhamentos à esquerda ou à direita, especialmente como conteúdo dos debates. Não é mais cabível aturar a inconsistência com que os governantes tratam os governados. É vital um pulso mais empírico que ideológico, mais técnica que voluntarismo, mais liberdade que controle opressivo. 

A deturpação  tem caráter absoluto: o poder perdeu a noção de que sua única função é atender as leis elaboradas pelo povo. Parecem palavras ao ar, isso porque ainda não enxergamos o conceito na vida prática.  E este povo, assim como a maior parte dos habitantes, não quer saber das pequenas diferenças, da bandeira do cartão, nem das condições particulares dos sujeitos  públicos. O que importa se bebe, tem vida devassa, é notívago? Tanto faz, desde que possa cumprir obrigações. 

O povo aprecia ser conduzido a uma vida compatível com o que as cidades e o campo deveriam oferecer. No entanto, isso não significa submissão incondicional, cheque em branco ou cegar-se ao carisma dos candidatos 

Responsabilizarmo-nos uns pelos outros, o que exige compromisso, para isso é preciso que cada um assuma seu papel. A maturidade, essa qualidade instável, costuma ser caprichosa, irritadiça e megera. Ela tem uma virtude: nunca perdeu um único trem. Mais dia, menos dia, ela aparece. 

Haja paciência!    

Tags: abismo, cratera, desfiladeiro, fossa, hiato, maturidade, obrigações, virtude

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