Jornal do Brasil

Terça-feira, 29 de Julho de 2014

Coisas da Política

Adeus, Machado  

Paulo Rosenbaum - médico e escritor

O projeto da moça que quer popularizar as obras de escritores “difíceis” é subsidiado pelo Minc, custeado por todos nós. E isso é só o começo. Em "Na fila", outras penas serão escaladas.  Descaracterização ou acessibilidade? O que parece óbvio não é simples. O problema é menos o projeto que a chancela do Estado.

A questão de popularizar a literatura tem indignado muitos. Mas isso é popularizar a leitura ou atestar o analfabetismo funcional da maior parte das pessoas? Se é isso, temos que nos perguntar qual terá sido a função do MEC nas últimas décadas. Portanto, a indignação está mal direcionada. O foco de estupefação deveria ser bem outro. E é, mais uma vez, a ideologia que o projeto encerra.

Ninguém, com algum discernimento intelectual, votaria desfigurar, adulterar ou anular as idiossincrasias de um escritor. O que sobraria deles e de qualquer um, se não fossem as palavras e as coisas que só cada um de nós pode falar, fazer ou escrever? Bem que os roteiristas e adaptadores de obras para o cinema usam a literatura, raras exceções, tentando enxugar e filtrar as obras mais difíceis. Mutilações são a regra.

O que interessa nesta análise é o que se esconde atrás desta política. Trata-se de verdadeira reversão do processo pedagógico. Reversão é bem melhor que perversão por representar perigo e gravidade maiores. Ninguém pode dizer que há incoerência. Afinal, a proposta é cuidar do candidato a leitor, tal qual a administração federal costuma tratar os interesses públicos: desprezo à inteligência.

Para que elevar os leitores ao patamar de uma linguagem erudita? Por que se esforçar para produzir uma geração crítica? Que importa trazer às pessoas o discernimento literário que permitiria distinguir Euclides da Cunha de um manual de autoajuda?

É esse, e nenhum outro o foco nevrálgico dessa e de outras iniciativas. A transformação palatável de conteúdos complexos em pasteurização medíocre, ainda que às vezes sutil, subliminar, e sempre com a camuflagem da promoção de equidade, faz parte do decadente projeto de poder. Essa visão estratégica que autoriza pessoas (pulemos o mérito da competência) a reduzirem uma obra de arte a um produto de consumo popular tipifica a índole deste gênero de experimentação com dinheiro público.

Decerto, perguntar-se-ia se valeria a pena continuar a gastar a vida, esforço e tinta, para, no final, ver suas letras pulverizadas para a grande degustação universal. Ele reconsideraria. Por que não aproveitar melhor o tempo?

Consultado, impossível prever a reação de Machado de Assis ao ser apresentado ao projeto. Talvez abrisse mão do uso de palavras sofisticadas. Provavelmente, daria cabo dos contos mais labirínticos. Caso os colegas, aflitos com a proposta, viessem até a sacada aflitos com seu suposto enlouquecimento, ele se ausentaria da escrivaninha para caminhar nas ruas do Cosme Velho, jogar palavras fora na velha adega e enfrentar o dia sem pressão dos fantasmas.

O fundador da Academia Brasileira de Letras convocaria os colegas de fardão para abandonar o ofício, cada vez menos útil.

O Bruxo, que não costumava remoer as vicissitudes, pensaria numa vingança elegante. Desistiria de corrigir o antológico erro tipográfico que atingiu seu livro Poesias. Com gosto, preservaria a palavra “cagara” no lugar de “cegara”.

Tags: começo, escritores, fila, minc, moça, nos, popularisar, projeto

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