Jornal do Brasil

Terça-feira, 29 de Julho de 2014

Coisas da Política

Na Europa, agricultores não querem saber de conversa com o Mercosul

Mauro Santayana

Enquanto há gente dando como favas contadas a assinatura do acordo de livre comércio entre a União Européia e o Mercosul, há setores, na própria Europa, que não querem ouvir falar do assunto.

Ontem, enquanto técnicos do Mercosul estavam reunidos em Caracas, na Venezuela, para fechar a proposta dos países do bloco sul-americano a ser apresentada à União Europeia, a imprensa divulgava que diversas associações de agricultores e pecuaristas europeus se manifestaram, mais uma vez, contra a assinatura de qualquer tratado que afete os seus interesses.

A Copa-Coceca — que reúne mais de 100 associações de agricultores e de cooperativas agrícolas da União Europeia e de países como a Turquia, Islândia, Noruega e Suíça — enviou documento às autoridades responsáveis pela agricultura na União Europeia, lembrando que 70% das carnes importadas pela região já provêm do Mercosul.

Na carta, as organizações afirmam que a aprovação do tratado traria bilhões de euros em prejuízo para os agricultores  e pecuaristas europeus.

A alegação é a de que o Mercosul não pode oferecer os mesmos padrões sanitários e de “rastreabilidade” cobrados dos agricultores do velho continente, e a de que existem barreiras à entrada de produtos agrícolas europeus nos países do Mercosul.

Mesmo que não houvesse a mobilização clara dos agricultores europeus por seus interesses — mobilização que tem que ser levada em conta na avaliação da proposta europeia para o Mercosul — ainda assim, não teríamos nenhuma garantia para nosso setor agrícola, tradicionalmente prejudicado pelos subsídios da Europa e  dos Estados Unidos à sua agricultura.

Novas leis em processo de aprovação pelos EUA e a UE, no lugar de acabar com os subsídios, estão substituindo-os por mecanismos de apoio, como seguros, que na prática representam mais dinheiro vivo para os agricultores.

E a própria Copa-Coceca continua fazendo pressão para ter apoio e entrar em novos mercados, como fez, em recente manifesto, pedindo que se mantenham subsídios, no setor leiteiro, a fim de que se possam “aproveitar” as oportunidades, abertas pelo aumento do consumo de leite na índia e na China, que deverá ser de 30% nos próximos dois anos.   

Esse tipo de mobilização é mais que  suficiente para mostrar que, por mais que nos abaixemos, e abramos célere e irresponsavelmente nossos mercados para os europeus e norte-americanos, nunca seremos tratados como iguais.

E se não é para sermos tratados como iguais, mas para entregar a América do Sul, único mercado para os manufaturados feitos no Brasil, então para que assinar esse tratado, principalmente quando estamos tendo crescentes déficits no comércio com a Europa e os EUA nos últimos anos?

Achar que esses déficits vão se transformar em superávits se abrirmos nossas fronteiras para os europeus beira a  insensatez e a ingenuidade, já que nem sequer na agricultura, onde somos reconhecidamente competitivos, eles querem ceder a fim de levar vantagem em outras áreas, como as de serviços e manufaturas, por exemplo.

O ministro Mauro Borges, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, afirmou, recentemente, que o Mercosul “não aceitará um acordo de livre comércio, sem uma proposta agrícola que for para valer”, e contou aos repórteres que a presidente Dilma Rousseff teria perguntado o que a União Europeia tem a oferecer para o Brasil.

O ministro poderia ter sido sincero, e respondido que a União Europeia está oferecendo ao nosso país o que sempre ofereceu antes, da última vez, nas negociações entre a Europa e o Mercosul, em 2004: até agora, rigorosamente, nada.  

 

Tags: Coisas, coluna, mauro, política, santayana

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