Jornal do Brasil

Quinta-feira, 30 de Outubro de 2014

Coisas da Política

Sobre nunca e sempre

Paulo Rosenbaum - médico e escritor

Todo mundo está dizendo que nunca viu tanta barbárie, gente insatisfeita, violência, linchamentos, impunidade, denúncias, arroubos, maledicência, ocultamento, manipulação de dados, fraudes, inquietação. Estamos sempre na pendura, sempre inviáveis, no improviso, injusto, violento e incorrigível. São tantos itens que a listagem não terminaria nunca. Nunca é como o sempre. Difícil predizer qualquer um dos dois. Ninguém mais duvida que as contas não fecham e que arrocho e aumentos estão sendo postergados para depois da Copa- Eleições. Quem levar caneco e faixa vai ter que pagar a rodada. A Copa já está ai. A Olimpíada poderia não ser todo esse lamento sobre o leite derramado. Se a sociedade impusesse condições e dissesse, com todas as sílabas, que não aceita mais exageros. Mas antes teria que aprender o bê-á-bá do jogo político: para recusar bem recusado é preciso renunciar à violência.

A incapacidade de assumir responsabilidades e a viseira ideológica que impede a autocritica são entraves maiores do que a situação desfavorável propriamente dita. A insistência no erro é mais daninha do que qualquer outra coisa. Na impossibilidade permanente da utopia o pragmatismo político deveria estar a serviço de toda a sociedade. No lugar disso, o pragmatismo político só está a favor de si mesmo. O hábito reiterado de tratar a população como cretina inimputável está na raiz do viés autoritário que estamos presenciando. Compreensivelmente, apostam no marketing de um mentor que lhes substitua o pensamento e a consciência. Reparem: voltando ou não, ele já está lá. 

Aos poucos a cola que o partido fominha — característica claramente assumida com a reforma política casuística que germina no tubo de ensaio — vinha aplicando nos adversários está se dissolvendo. A sociedade já enxerga que a esperança que diziam trazer tornou-se corrosiva para a democracia. Bastaria uma união de oposições. Uma frente. Uma união de salvação nacional para apresentar com clareza à grande população o que realmente significa o programa partidário deles. O papel não deixa mentir. O objetivo é mudar na base do voluntarismo histórico a organização do Estado. Farão o que for preciso. Só que partido algum pode se considerar o próprio Estado.

Não precisaríamos de muito para desvendar a onipotência. Se ficarmos apenas atentos à linguagem, muito pode ser descoberto. Trata-se, na verdade, de uma distorção absoluta do papel da democracia (para a qual dão de ombros), já que o papel de um partido não deve ser, por definição, monopolizador. Representa, precisa necessariamente representar, parcelas sociais. Quem duvida, que consulte os registros históricos,  e notem que o estabelecimento do centralismo partidário pelo mundo resultou em ditaduras. Considerando também as demoditaduras plebiscitárias, aquelas que os votos apenas chancelam os autocratas que estão no poder. As de esquerda duram mais do que as de direita. Uma mais sangrenta que a outra. Mas ditadura é ditadura. E elas se apoiam. Certeza que há gente no Partido dos Trabalhadores e conexões aliadas na esquerda e no centro — inconscientes do que seus mentores e dirigentes desejam — que quando chegar o momento — e ele chegará — tentariam recusar o estabelecimento de uma autocracia tirânica. Mas era para se antecipar, a única defesa para quem acorda tarde demais.

Não é mais suficiente deixar de explicitar o desejo totalitário, que, aos poucos, transborda. Na saliva e nos atos. Para quem desconfia — lembrem-se que, para eles, todos que discordam são golpistas — consultem o programa impresso: controle social (eufemismo) da imprensa, restrição progressiva das liberdades civis, governança e justiça social por decretos, eliminação da atual organização político-partidária e substituição gradual por uma estrutura popular (sic). Muitas delas são propostas cuidadosa e propositalmente vagas, a fim de que a odiosa “classe média” não desista deles e não esvazie seus votos em outros.

É na secura e no esgotamento de horizontes que podemos enxergar o cenário com mais crueza e clareza. Parece que o sempre e o nunca foram feitos sob medida para este momento. Nunca antes na história deste país precisamos ficar permanecer sempre alertas.   

Tags: Atos, barbárie, linchamentos, saliva, todo mundo, violência

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