Jornal do Brasil

Terça-feira, 23 de Setembro de 2014

Coisas da Política

Os cães enlouquecidos

Mauro Santayana

Tenho, por motivos que não vêm ao caso, amigos no norte de Portugal, em pequena cidade com bela ponte romana que atravessa o Rio Lima, perto de Viana do Castelo.

Um dia, há muitos anos, estando por lá, em férias, resolvi sair em domingo calmo, para dar uma volta. De repente, já à tarde, me vi sobre a velha ponte de pedra, a alguns metros de pescador de meia idade, olhando as duas margens do rio.  Nessa época do ano, não chovia e a correnteza diminuía de força e de tamanho.

Estávamos ali, em silêncio, quando, ao longe, vi aparecer massa compacta de vira-latas, mais parecida com uma matilha de cães selvagens do que animais abandonados que tivessem fugido para o rio. Quando se aproximaram, uns encostados aos outros, parecendo cercar alguma coisa,  começamos a ouvir uivos. Lancinantes.

Acho que fizemos desfavor aos lobos, ao domesticá-los. Ao conviver com os homens, e se tornarem cães, eles aprenderam coisas boas e ruins, e talvez, das más coisas, mais do que deveriam aprender.

Pensei em descer à areia escura, para ver o que ocorria; mas, como os cães não deixassem de se mover, em direção à ponte, esperei que eles se aproximassem.

Estavam cercando algo, porque o círculo quase perfeito que faziam evoluía como um cardume de piranhas dentro da água,  rodeando sua presa.  À  medida que os cães chegavam mais perto, os uivos iam se tornando mais agudos e mais desesperados. Vi então, no meio deles, um cão menor e mais franzino, que estava sendo agredido pelos outros. Os que estavam mais próximos rosnavam, e latiam com ódio para ele;  os outros fechavam sua passagem, quando tentava abrir caminho para  se afastar do grupo. Em intervalos curtos, entre os latidos furiosos, mordiam seus flancos, o rabo ou o focinho.       

Apiedado, me aproximei do pescador e entabulei conversa:

— O que será que esse cão fez aos outros, para ser tratado assim? Nunca vi uma coisa dessas. Será que pertence a outro bando, ou tentou  aproximar-se desse?

— Não, não, por aqui só há um grupo de cães, tenho certeza. Mas eles são maus, fazem isso quase sempre, sem motivo.

— Mas por qual razão? — perguntei — eles agem como se soubessem o que estão fazendo. Principalmente, os maiores, os mais agressivos.

— Eu acho que é uma questão de poder.  E de medo.

— Medo de quê?

— De que façam com eles o que eles estão a fazer agora a esse infeliz. Se forem perversos, baterem mais, ferirem mais, rosnarem mais, conservam seu lugar no grupo e os outros não se metem com eles. Eles não querem ter culpa como ele.

— Não querem ter culpa como ele? Mas se ele, ao que parece, e como o senhor mesmo disse ainda agora, não fez nada?

— Ele não tem nenhuma culpa, mas, pelos ganidos, parece que está a pedir desculpas, como se tivesse, não lhe parece? É como se estivesse com esperança de que, ao aceitar a culpa, qualquer culpa, eles terão pena dele e vão deixar de mordê-lo. Mas não farão isso, o senhor não está a ver, pelo jeito deles?

O homem tinha razão.

Nunca, em minha vida, havia ouvido escapar de um cão sons tão tristes, tão agudos, tão eloquentes. Era como se pedisse para que parassem. Que o deixassem ir embora. Que não sabia a razão de o terem escolhido, ou do por que estava sofrendo tanto.

A essa altura os cães haviam passado por debaixo dos arcos da ponte em que estávamos e seguiam para o leste. O pescador me disse que eles iriam levá-lo para a primeira curva do rio, que ficava fora das vistas da cidade. Com o coração apertado, perguntei-lhe o que iriam fazer com ele.

— Vão matá-lo — respondeu o homem, lançando mais uma vez seu anzol na água — e depois, comê-lo.

Lembrei-me desse episódio, que estava guardando para uma crônica, ao ler, nos jornais, a história da morte bárbara da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, amarrada e espancada, sábado, por um grupo de assassinos, no bairro de Morrinhos, na Baixada Santista, em Guarujá.

Uso a palavra assassinos porque, ao contrário do crime pretensamente atribuído à sua vítima — de ter sequestrado uma criança para praticar magia negra o  deles ficou provado pelo resultado: a morte, por linchamento, de uma jovem mãe,  a partir da divulgação, em site sensacionalista que emula programas vespertinos de televisão, de um retrato falado que teria servido para a “identificação” da vítima pelo grupo de psicopatas que a matou.

Temos tido, no Brasil, nos últimos meses, inúmeros exemplos desse tipo.

Como se não bastassem milhares de mortes de suspeitos, por auto de resistência à prisão, ou em circunstâncias não esclarecidas, pela polícia, pessoas consideradas aparentemente “normais” estão fazendo “justiça”, ou melhor, cometendo crime de tortura e homicídio, com as próprias mãos. Descarregando seu ódio, seu recalque e suas frustrações, com porrete ou um pedaço de cano nas mãos. Como cães enlouquecidos.

O linchamento é a festa dos assassinos, o playground, ou carnaval dos psicopatas, o recurso mais covarde dos canalhas.

Nada o justifica.

Não existe nenhuma diferença entre matar uma criança em um ritual de magia negra e participar do assassinato coletivo de uma mãe Quem quer punir alguém por um crime chama a polícia e o entrega à justiça. Quem quer cometer um crime, usa a circunstância de o outro estar cercado, inerme, em minoria — principalmente quando se trata de alguém mais velho, muito jovem ou de uma mulher — para dar vazão aos seus instintos mais baixos, se assenhoreando do corpo do outro, vibrando a cada pancada, a cada paulada, a cada pontapé, bebendo do seu medo, da sua vulnerabilidade, de seu pavor diante da iminência da morte.

Não existe nenhuma diferença entre matar uma criança em um ritual de magia negra e participar do assassinato coletivo de uma mãe.

Os homicidas que humilharam, espancaram e mataram Fabiane Maria de Jesus devem ser encontrados e punidos, como devem ser os responsáveis pela divulgação do retrato falado e do boato, que não tinham sequer a confirmação do desaparecimento de qualquer criança no município. E que, provavelmente, queriam apenas aumentar o número de visitantes do blog.

A punição maior deve vir da própria consciência dos culpados. Eles mereceriam ouvir, de novo, a cada noite, a cada sonho, para sempre, os apelos dramáticos de sua vítima. Ver, em sua mente, até o último de seus dias, o olhar apavorado de Fabiane, clamando por sua vida.

É isso que nos dá vontade de desejar-lhes, esperando que, em um país que está perdendo a razão em nome do combate à violência, em que não existe mais a presunção de inocência, eles não venham, também, a ser linchados um dia. Se chegar sua vez e seu momento, como chegou, naquele dia, para o cachorro castanho que vi, cercado pelos outros, no areal do rio Lima.

Tags: Coisas, coluna, mauro, política, santayana

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