Jornal do Brasil

Quarta-feira, 30 de Julho de 2014

Coisas da Política

A arte de truncar diálogos

Paulo Rosenbaum -  médico e escritor

O Estado de Direito funciona para que maiorias e minorias convivam e sejam mutuamente protegidas 

Mais uma vez, viramos um país de acusadores. Todos na retranca. Acusam-se as elites de muitas coisas. De fato há gentes muito atrasadas, mas elas estão distribuídas em todas as classes sociais.  Os populistas acusam a esmo coisas como “não querem que os pobres cresçam”. Senhor! Os tempos são outros. Há setores das elites estagnados mas há também os mais civilizados. Gente que enxerga que não faz muito sentido a acumulação que não distribua nem o crescimento predador. Os empresários não são vilões, como nos ensinou Abraham Lincoln. Os assalariados não  são santos. Muita gente já realizou que a desigualdade social abusiva é uma aberração. O incômodo com uma sociedade mais equânime é menor. Mas equânime não significa a aberração oposta, vale dizer, a velha busca pela utopia isonômica. Esta também conhecemos bem, isonomia para os outros, privilégios para as castas governamentais.

A aposta de muitos grupos tardo anarquistas e piromaníacos saudosistas não é, nunca foi, para a disposição dialógica. Preferem a simplificação insuportável entre “bons e maus”.  Mas a sociedade está berrando: chega! Ninguém mais quer levar a sério a língua solta, a fanfarronice, o gogó demagógico.  Surpreendentemente, ainda há quem ache que estas figuras ainda têm algum papel a cumprir — e assim elas se recusam a encarar que seu ciclo e seu tempo findaram. Talvez por isso, o desespero, o apelo à violência, à linguagem hostil, o apelo à demonização de quem discorda.  

O alerta fundamental deve ser para que todos se libertem da escravidão da manipulação e da dívida permanente com o sistema que nos mantém reféns do Estado. A democracia foi elaborada exatamente para que as pessoas não sejam subjugadas pelo poder. O Estado de Direito funciona para que maiorias e minorias convivam e sejam mutuamente protegidas. Parece que estamos em plena inversão: Estado mínimo nos interesses máximos, Estado máximo nas prioridades fúteis.

A ridícula polaridade que ainda temos que suportar entre direita e esquerda é uma forma de não encarar essas e outras questões da cidadania. Por isso, trata-se de um tremendo anacronismo continuar dividindo a política entre conservadores e revolucionários. A única pergunta cabível para avaliar gente que quer se eleger deveria ser: criatividade e capacidade para apresentar soluções. Tampouco resta espaço para autocratas e carismáticos persuasivos, que costumam eleger e a seus protegidos, mas não possuem tino prático para conduzir a administração. 

Imagine quanto desperdício de energia e trabalho só para saber se a CPI seria exclusiva da Petrobras. É claro que tudo merece apuração, mas o que se vê são mais cortinas de fumaça. Mas já não bastam  programas entregues pela metade, bagunça na economia, e  os equívocos de planejamento? Parece que o jogo político vem se tornando  completamente autorreferente, sinal bem grave. Isso, quando o país têm urgências e contas improrrogáveis para acertar.

A inadimplência do Estado para com a sociedade não é financeira, é moral.

Ninguém duvida que a redução para o embate ideológico puro é uma medida anestésica e acaba beneficiando o mal feito, os acordos lesivos aos interesses públicos, a condução equivocada na escolhas das verdadeiras prioridades.

A primeira delas, e mais urgente, é saber se uma jovem democracia pode se submeter a tantas pressões sociais sem que as instituições tenham encontrado o ponto de solidez e amadurecimento necessários para isso. Os que demandam reforma política mas, convenientemente, não a explicitam, fazem parte desse pseudoprogressismo revolucionário. É necessário romper a linha que trunca o debate político para que nem a nostalgia revolucionária nem a imaturidade reacionária dominem a cena.

A agenda do país agradece.   

Tags: acusadores, democracia, elites, maiorias, minorias

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