Jornal do Brasil

Sexta-feira, 28 de Novembro de 2014

Coisas da Política

De Itajaí para o mundo

Paulo Rosenbaum - médico e escritor

Os habitantes da cidade de Santa Catarina foram surpreendidos?  Deveriam. Pois de madrugada, lá pelas 3 da manhã, alguém espalhou a coisa viscosa pelas ruas. Colada nos postes na cidade estava a foto do Fuher com um agradecimento e votos de feliz aniversário. O recrudescimento da velha paixão de homens por líderes autoritários é indicio de muitas coisas.

O retrocesso tem implicações que devem ir além da atração por homens fortes que muitos acalentam. Alguns dias depois, nos mesmos postes, Adolph foi substituído por Josef. Agora Stálin aparecia derrubando o maníaco nazista.

Esta pequena e grotesca guerra de publicidade de ditadores nos postes desnuda mais nosso momento do que gostaríamos. São simbolismos conectados de polaridades do atraso. A análise pode ir para bem além do que supomos.

Em primeiro lugar, muito cuidado com postes. Eles sempre estiveram lá. Nós que nunca costumamos notá-los, a não ser quando algum falastrão queria colar neles algum discurso. Os nosso colonizadores portugueses já abusavam deles quando não existiam editais.  Entupiam de publicidade os velhos troncos com “bandos”, e neles  os mais estranhos anúncios: do aumento de impostos à convocação de gente para abrir picadas para  monarcas, dos alvarás escravagistas ao anúncio da punição para os inconfidentes mineiros. Hoje, são usados nas eleições para reciclar papelões. Sem a menor consistência descascam rápido. A péssima qualidade empregada só notamos depois de algum tempo. Em geral tarde demais.

Voltando ao pequeno mundo de adoradores de homens fortes, para eles o que vale mesmo é a inspiração. Precisam confiar cegamente em quem fala com tom de mando.  Quem promete o vago. Quem encomenda culpa ao outro. Segundo eles, é preciso liderar com mão de aço. Esmagar opositores e, se preciso for, caçar papagaios só porque falam e, ainda pior, se acreditarem no diálogo.  

É intrigante imaginar por que raios de pensamento mágico essa nova juventude hitlerista, daqui, mas também de acolá, imagina que seria poupada pelo bigode da Bavária.  Todo açougueiro contumaz costuma dar preferência por carne fresca.  

Numa população com altíssimos indicadores de miscigenação como a nossa, pouquíssimos escapariam da eugenia dos teóricos do nacional socialismo. Além disso, não precisamos de agentes externos nos comandando. Nossos locais já se encarregaram de inserir nas nossas prioridades a agenda bizarra.

Ali, há um cardápio de cores para que as pessoas escolham sua tonalidade de pele.  Os teóricos da pátria entenderam que isso teria mais visibilidade do que uma escolha baseada em critérios de renda que gerasse real igualdade de oportunidades.  Mas é claro que entre o justo e o cinismo ideológico, já sabemos quem dá de goleada.

O racismo e a intolerância — crescentes nos estádios, nas filas, nas ruas — crescem na medida em que o próprio Estado orgulhosamente vem adotando critérios discriminatórios.

Mas, e a as boas intenções? Parece que se aposentaram. Entrou em campo um reserva: o pragmatismo político selvagem. Predador perigoso, seu programa de governo está anunciado: canibalizará outras espécies para reinar sozinho.

Quando perguntaram se não se importava com o isolamento, deu de ombros e saiu de fininho. Com o rabo entre as pernas, aos confidentes, disse que sempre imaginou que seria barbada.

— Não era bem assim.   

Tags: habitantes, implicações, madrugada, postes, retrocesso, sozinho, surpreendidos

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