Jornal do Brasil

Quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

Coisas da Política

 Da coerência e do coincidir     

Paulo Rosenbaum*

"Coincidir com nós mesmos" (Paul Ricouer)

Se esse conceito/aforismo elaborado por Paul Ricoeur está bem formatado, é preciso discernir coincidir de coerência.

Podemos inclusive coincidir em nossas incoerências, inconstâncias e fragmentações. A coerência, por sua vez, pode ser só uma corda que engessa. Uma amarra     que sacrifica a criatividade à servilidade e ao reducionismo que as ideologias exigem.

Por isso, é com alegria que deveríamos acolher mudanças, revezamentos, alternâncias e a  flexibilidade. Apreciemos mesmo as incoerências, tão difíceis de aceitar, mas absolutamente comuns e necessárias na vida prática. Até mesmo a saúde reconhece quão importante é mudar de ideia, variar o fluxo, se livrar da mesmice.

Somos polissêmicos, falamos em várias linguagens ao mesmo tempo, e, apesar de tentarmos conservar uma vida minimamente integrada, somos todos seres ambivalentes. A incoerência e a inconstância são as marcas do sujeito.

Sociedade e meio exigem e nos pressionam para perfazer a trilha retilínea e uniforme. Uma carreira por exemplo. Um exemplo de sucesso. Temos que parecer ícones, triunfar, vencer os demais. A ditadura do êxito está condicionada a performance. Acriticamente, repassamos a mesma prescrição aos nossos filhos. Mas os fatos, são os fatos que renegam isso: somos erráticos, andamos em zigue-zague, e, divididos, nunca alcançamos uma identidade definitiva. A novidade é que isso pode ser bom.

Isso não significa que quem se dedica ao planejamento público não deva responder por projetos que tenham começo, meio e fim. O Estado é que deve responder pelo planejamento e direção do país.   

Por isso, e para isso, é preciso distinguir projetos pessoais-privados daqueles de interesse público.

Muitas vezes a ideologia pessoal de um político ou administrador, projetada na esfera de sua atuação pública, distorce completamente a lisura esperada da atuação dessa representação.

Um mandato é sagrado porque deve obedecer a expectativas e demandas de um conjunto heterodoxo de pessoas. O homem público — expressão duplamente infeliz, homens jamais serão públicos, no máximo portamos interesses coletivos — que se apropriasse realmente de seu papel deveria saber que sua ideologia pessoal não significa nada diante da monumental tarefa de representar um determinado conjunto de expectativas.

No caso de quem se decida pela vida pública não se trata de suprimir o ego, mas de submetê-lo aos outros. Os partidos tampouco podem cumprir essa função porque — como androides que ficam arrogantes — passam a atuar como organismos independentes e agir em causa própria. E já sabemos o tamanho da erosão causada pela sede por hegemonia. 

Não sei se legisladores e executivos governamentais deveriam aprender isso em aulas de teatro ou em liceus de filosofia. Seria vital que todos adquirissem a consciência de que não passam de coadjuvantes, assim como o próprio Estado o é. Como resultado dessa incompreensão, testemunhamos uma cadeia de deformações. Elas culminam naquilo que pode ser chamado de representação negativa. Isto é, o sujeito cujo  papel seria o de simbolizar um  agrupamento — sejam minorias ou não — passa a representar a si mesmo, assumindo o protagonismo.   

Quando esta cadeia de representação negativa passa a se generalizar (nosso presente) os cidadãos desenvolvem uma aversão natural aos seus próprios representantes. No jargão psicanalítico seria a má transferência. E esta pode se estender ao próprio Estado. Aí é/está a desagregação no sistema representativo.

De fato, para que sustentaríamos o demiurgo que recolhe tributos sem oferecer nada ou quase nada em troca? Como acreditar em poderes independentes que se submetem uma hora à força dos financiamentos, e, numa outra, à associação fisiológica? Qual seria o objetivo em desqualificar as instituições senão para perpetuar-se no poder?

É essa crônica inversão de papéis, e não os cidadãos, aquela que subverte a ordem social, criando uma situação insustentável e a baixa governabilidade.    

Já coincidir é demandar sentido espiritual lato sensu. Isto é, criar uma direção, gerar um horizonte plausível para o desenvolvimento pessoal e material das pessoas.

É encaminhar-se na direção de uma vida com significado. O coincidir implica também um sentimento de compromisso: a ética, cuja tradução criadora poderia ser cuidado e responsabilidade. Se somos todos responsáveis, cuidaremos uns dos outros. Neste sentido, caberia descartar o Estado como tutor. Era essa, imagino, a ideia original de fraternidade.

Governos e governantes provavelmente bocejem lendo o que escrevi logo acima. Que ninguém pense, porém, que daqui em diante gozarão de sono reparador.  

* Paulo Rosenbaum é médico e escritor. - rosenb@netpoint.com.br

Tags: aforisma, cidadãos, conceito, fluxo, idea, ricouier, SAÚDE, sono

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