Jornal do Brasil

Quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

Coisas da Política

Malandragem de ponta

Paulo Rosenbaum - médico e escritor

Há uma tese circulando entre governantes. Prediz mais ou menos o seguinte: podemos errar o quanto quisermos: não pega nada! Estão cegamente confiantes que a blindagem é escudo que barra até as partículas radioativas. Das duas uma: ou a convicção é tão forte que resvala na imbecilidade.Ou o desejo de obedecer o slogan enganar para vencer” é de tal modo extremado que estão apostando no confronto e na divisão da sociedade como plano B. Neste caso, prognóstico reservadíssimo.

Vejamos o malando da ponta direita. Eles têm a desvantagem da transparência e da ingenuidade. Por aqui, as marchas pedindo golpe demonstraram quão despreparados estamos para externar a desaprovação aos desmandos. Rebelião contra serviços? Foi o que um megaempresário acabou de pedir. A qual lugar isso nos levaria? Vão culpar quem? O servente, o médico, o escriturário? Ou vamos dar safanões no motorista do metrô, ofender os funcionários públicos e destratar atendentes?

O que adianta depredar ônibus, escolas e estádios? Qual nome e legenda beneficiária política dos ímpetos destrutivos?

Se ganha a dona Le Pen na França, as minorias estarão em maus lençóis. De extrema direita ela já declarou — notem a índole do ódio liberador — que exigirá como uma das primeiras medidas que as prefeituras suspendam refeições especiais (isto é, sem carne de porco) para atingir muçulmanos e judeus. Que perfeita maracutaia capturar o crescente sentimento xenofóbico dos francos para enfiar mais votos nas urnas!

Já o malandro da ponta esquerda não é muito diferente. Se está longe da ingenuidade, sua opacidade não poderia ser mais densa. Se há um escândalo, tergiversam. Se há prejuízo, embolam. Pega bem. Se nada disso der certo, desmentem com veemência e dizem que é complô da oposição. Mesmo sem evidências, que ela esteja viva.

Por fim, o malandro pode recorrer à afirmação estúpida — o essencial é pronunciar pausadamente, com convicção:

— Podem dizer o que quiserem, foi um bom negócio!

Frases curtas, com reticências. Evite-se explicitar para quem foi bom.

Ou convoque uma reunião de blogueiros simpáticos a sua causa, acenando patrocínios.

—O que devemos dizer, Sire?

— Qualquer coisa, evitem falar do assunto.  Batam em quem fala.

— Mas, e as provas? O que fazemos contra as provas?

— Filho, temos unhas e dentes. Ninguém mais dá pelota para provas.  

Pelo mundo, malandros parecem continuar embaralhando sozinhos as cartas do poder.

Putin, escolado em alguma colina nos arredores de Moscou, combinou com o ex-presidente deposto em Kiev que declarasse que divergia da posição russa. É que agora ele vai se engajar numa “campanha para que a Crimeia volte a ser parte da Ucrânia”. (sic)  

Nice try Mr. Putin. No caso de Vladimir, não se sabe se ele é esquerda, direita ou um autocrata eclético, gênero em ascensão pelo mundo.

O que chama mesmo a atenção é a raridade de políticos com independência para cuidar da única coisa que importa na atividade: oferecer e implantar uma visão estratégica de Estado. Em sua maioria esses sujeitos estão sempre a zelar pela coisa privada na vida pública. Contradição em termos, podem resmungar alguns. Mas, e se for aí que estiver a essência da degradação?

Que ganhem. Que ganhem muito. Que mudem as leis. Que os salários dos representantes e parlamentares sejam bem próximos do absurdo. Não exigirá nenhum esforço. Que se aparelhe o Estado com parentes, amigos e simpatizantes da causa. Que se rateie o superávitdos negócios públicos. Mas queremos uma contrapartida. Uma única exigência. Façamos dela um dogma: exigir gerenciamento eficaz da República. 

Mas isso já é pedir muito. 

Tags: estado, governantes, kiev, le pen, putin, república, vladimir

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