Jornal do Brasil

Quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

Coisas da Política

A alimentação humana e a canibalização dos porcos

Mauro Santayana

Os suinocultores brasileiros estão pedindo ao Ministério da Agricultura — que está “estudando” o assunto — a adoção da suspensão da importação de plasma, material genético, e reprodutores dos EUA.

Os Estados Unidos estão enfrentando, neste momento, uma epidemia do vírus da DES (Diarreia Epidêmica Suína), que chegou aos EUA no ano passado, e já atingiu outros países americanos, como o México, Canadá, República Dominicana, Colômbia e Peru, nos dois últimos casos, países que fazem fronteira com o Brasil.

Mais que com animais vivos, e com material genético, a preocupação de técnicos e veterinários está voltada para o plasma de sangue de suínos importado dos EUA para completar a ração que é dada aos nossos suínos, o que lembra a velha expressão de que “ do porco só não se aproveita o berro”, e nos revela a existência de práticas de vampirismo dignas de um romance como Crepúsculo, estrelado por porcos, como símbolo do ponto a que chegou o capitalismo na canibalização das espécies em prol da busca desenfreada do lucro.

O uso de proteína derivada da carne, sangue e ossos de mamíferos para a alimentação de animais que não precisam necessariamente disso em sua dieta — principalmente quando derivada da própria espécie — não é boa conselheira. Primeiro, porque se o plasma fosse bom, os Estados Unidos o estariam usando para completar a  alimentação de seus próprios suínos, e não o vendendo para outros países.  E, em segundo lugar, por causa do portentoso exemplo da “vaca louca”, doença que levou ao abate de milhões de reses e trouxe centenas de bilhões de dólares em prejuízo a pecuaristas do dito Primeiro Mundo, justamente por causa da utilização de farinha de carne e ossos de mamíferos contaminados com Encefalopatia Espongiforme Bovina, para completar a ração normal de animais da mesma espécie.

A “vaca louca” levou à proibição, na Inglaterra, a partir de 1996, de qualquer proteína animal na alimentação de ruminantes. A essa altura, a doença já havia se espalhado — por meio da exportação de animais para reprodução e de farinha de ossos e carne pela Inglaterra — para várias partes do mundo, causando enorme prejuízo econômico e colocando em risco milhares de vidas, já que ficou provada depois a sua relação com o aparecimento em humanos de uma nova variante da  doença de Creutzfeldt-Jakob, que é provocada pelo consumo de produtos bovinos contaminados.

Considerando-se a íntima relação mercadológica e regulatória entre os Estados Unidos e a Inglaterra, é preciso saber se, devido à “vaca louca”, estendeu-se  a proibição do uso de proteína de mamíferos vigente na Grã-Bretanha aos EUA, e se a mesma lei vale para suínos. Assim, descobriríamos por que os EUA nos exportam — e não consomem — o plasma que retiram do sangue de seus porcos.    

A vinda à luz desses aspectos, para dizer o mínimo, controversos, da Guerra dos Porcos, no contexto da batalha mundial da produção e consumo de proteína animal pelo mercado humano exige, da parte do governo federal, duas atitudes:

Proibir imediatamente o uso de proteína animal — ou, ao menos, de mamíferos — na alimentação de porcos, aves e bovinos.

Aceitar o pedido do setor, de imediata imposição de barreiras à entrada de suínos vivos e de seus subprodutos — principalmente o plasma — de fora do país.

Isso tem que ser feito não apenas por uma questão sanitária mas, também, de marketing e de geopolítica. O Brasil não pode, justamente agora, que está a ponto de  substituir — devido à questão da Crimeia — os Estados Unidos como fornecedor de carne suína, bovina e de aves para a Rússia, permitir que surja o mínimo empecilho no aproveitamento dessa oportunidade.

Isso, sem falar da possibilidade, que não se deve descartar, do aparecimento — devido à importação de “insumos proteicos” de outros países — de graves doenças que podem afetar a saúde da população brasileira.    

Tags: brasil, COLÔMBIA, doenças, EUA, peru, plasma, suinicultores

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