Jornal do Brasil

Sábado, 25 de Outubro de 2014

Coisas da Política

Cabresto universal

Paulo Rosenbaum - médico e escritor

Vai ter de tudo. Copa, confusão e eleição.

Curiosa a verve estoica das elites governantes. A maioria faz questão de ignorar o tamanho da encrenca em que a má gestão política e a condução da economia nos meteram. Do outro lado, há gente pedindo bis. — Queremos golpe! Só isso? Golpe e pronto? De qual tipo? Militar? Imobilizador, ou nocaute?

A frase oscila entre a estupidez e o non sense. Apesar de como a maioria, também me desespero com o curso dos acontecimentos. Mas golpes abrem precedentes difíceis de sanar. Quem pede golpe pode não se dar conta, mas é sócio ativo dos que hoje pensam em rasgar a Constituição, ou reformá-la à sua conveniência, o que no fim e ao cabo dá no mesmo.

A quem interessa que se projetem apenas polarizações no imaginário social? liberdade ou socialismo, justiça social ou capitalismo selvagem?

Capturo uma experiência das ruas. Um taxista acaba de me dizer, com pesar, que, na sua cidade — região do setor leiteiro do sul do Ceará — muitos conterrâneos preferem não mais trabalhar — com ou sem registro — porque estão acomodados com os benefícios sociais conquistados.

Enquanto dirigia, empolgado pela indignação, emendava que todos por lá votarão na situação. A pergunta inevitável, que não fiz, seria saber se era essa a função —essencial, imprescindível, útil — dos programas de assistência do Estado. Gestões tucanas foram pioneiras nas “bolsas”, e hoje a autoria é ferozmente reivindicada pelas petistas. Mas a pergunta que importa não é quem é a mãe. Indagamos se o plano era transformar os pobres em vassalos do Estado. Se o improviso pode ter caráter definitivo.  Se a emergência há de continuar.

No lugar de promover desenvolvimento e educação, aplacar a fome de renda, aplica-se a injeção soporífera de renda vitalícia. Sob tal esquema, quem negará sucesso ao populismo de Estado? Como é tentador proscrever a miséria na base do decreto, do slogan, do voluntarismo messiânico!

Claro que dá muito mais trabalho — muito menos interessante do ponto de vista do apego ao poder — aumentar a produção, diminuir as desigualdades através do crescimento sustentável da renda, tornar os sujeitos autossuficientes para  que possam, enfim, sonhar com algo parecido com a cidadania. Sonho bem distante dos brasileiros.  

E assim vamos emplacando o cabresto universal da perpetuidade. Depois das experiências pífias de milagre econômico, socialismo moreno, globalização e liberalismo chegamos ao pseudossocialismo candango. Um derivativo do atraso, da mesmice, da inépcia política que atola a Federação com ideias de antanho, num momento que exigiria quebra de  paradigmas, não reafirmação de dogmas.

Parece produzir algum conforto mental acompanhar os bem-pensantes que fantasiam a luta essencial entre conservadores e revolucionários. Convoca-se violência, aposta-se no acirramento, na exposição crua das contradições do capitalismo, como se elas já não estivessem dissecadas a céu aberto, nas fronteiras fraqueadas ao crime, nas cidades abandonadas à própria sorte.

Incorrem no simplismo primitivo de ignorar como estão distribuídas as forças produtivas. Mas, principalmente, são hábeis para negar a legitimidade das aspirações das pessoas. Doravante reduzidas à classe média, pequena burguesia, elites conservadoras. Seletivamente cegos, ignoram que processos de transformação viram a mesa, esfacelam junto a cultura. Cuja democracia é um dos seus resultados civilizatórios.  

O erro está em supor que a vida comporte reduções dessa ordem para se encaixar em formulações políticas.  

Não podem conceber — muitos não sobreviveriam — que há sempre uma luta precedente, não exógena, não ideológica.    

Ainda há esperança que o sonho de Monteiro Lobato não termine no mesmo buraco sem fundo que deu início aos anos de chumbo. Imagino que, num futuro próximo, muita coisa vá requerer medidas de inédita radicalidade. Resta saber se, contando com os instrumentos atuais, estamos maduros para os colocar em prática. 

Tags: advento, áfrica, alcoa, brasil, negociações, tecnologia

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Comentários

1 comentário
  • Itamar E. da S. T. F. de Oliveira

    Em

    http://blogs.estadao.com.br/roldao-arruda/bolsa-familia-deu-mais-liberdade-aos-pobres-diz-pesquisadora/

    http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/06/1293113-bolsa-familia-enfraquece-o-coronelismo-e-rompe-cultura-da-resignacao-diz-sociologa.shtml

    Cerca de 10 milhões de pessoas deixaram o Bolsa Família de 2003 a 2011:
    http://www.istoe.com.br/assuntos/editorial/detalhe/170230_OS+EMERGENTES+DO+BOLSA+FAMILIA
    http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/desistencia-do-bolsa-familia-chega-a-40.html

    http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica-brasil-economia/33,65,33,3/2013/05/07/internas_economia,364728/estudo-do-ipea-mostra-que-bolsa-familia-nao-leva-beneficiario-a-acomodacao.shtml

    Temos exemplos de pesquisas e demais perspectivas sobre o bolsa-família e seus reflexos.

    Eu prefiro não me fiar na opinião eventual de quem usa o cabresto da grande mídia, seja ela por papel ou antena.

    Engraçado como cada dia que passa eu gosto mais dos médicos cubanos.

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