Jornal do Brasil

Sábado, 29 de Novembro de 2014

Coisas da Política

Pororoca de beócios 

Paulo Rosenbaum - médico e escritor

Nos últimos dias, marchas antagônicas caminhavam em direções opostas pelas grande avenidas do país. Ficar de fora deste e de outros grandiosos encontros traz consequências: serás acusado de alienação. Se não é palavrão, soa depreciativo. Então, do conforto alienado fico a pensar se, enquanto eles se agridem com palavrões de ordem, acreditam  naquilo que dizem, e se tudo isso faz algum sentido.  

Bastaria os nomes para deixar qualquer um aflito: marcha da família X antifascistas — mídia ninja. É de tremer.

Todos estão dizendo, até o alto escalão, que tudo isso é prova de que a democracia está viva. Na contramão, tomado de assalto, vejo real perigo de fim da picada. Daí a convicção de que não são poucas as chances de que me mandem ao encontro do alienista do Machado. Aí, tento me recompor para avaliar o tamanho da avaria que devo carregar na cabeça. Mas, de novo, me convenço de que o raciocínio não poderia ser mais retilíneo.  

Se todos têm direito de se manifestar, não quer dizer que quem se manifesta possa se arrogar monopólio de coisa alguma. Pois é o que parece: que quem faz barulho representa todas as vozes. Não é assim, mas eles impedem a mobilidade urbana dos outros milhões. Como fica?

Por isso e para outras coisas, os gregos, preocupados com a representação, inventaram o voto. O que ainda não aperfeiçoamos foram instrumentos que permitam corrigir o rumo, em caso de arrependimento. Os recalls, compreensivelmente temidos pelos que legislam, seriam os melhores e mais eficientes instrumentos fiscalizadores dos cidadãos. Por isso, dificilmente serão instalados.  

Manifestações difusas e sem pauta denotam esse déficit de recursos das democracias representativas. E, sem podermos dar vazão ao arrependimento, mergulhamos no remorso e na constrição.

Sair às ruas para arregaçar o patrimônio tem valor zero como procedimento democrático. O mesmo zero que os governantes merecem por usar verbas públicas para faturar votos. A mesmíssima nulidade quando o poder autocrático, sem cerimônia, favorece a si mesmo. Podemos estar acostumados, mas nada disto faz parte das regras democráticas.

Se há uma Constituição e ela ainda tem algum valor, o clamor geral deveria ser para que fosse cumprida. Golpistas, pró e contra, não podem ser confundidos com democratas. Infiltrados na multidão, eles vêm se transformando no aval para a continuidade do arbítrio sob o qual estamos sendo cozidos em fogo brando.  

O silêncio sobre os massacres contra os venezuelanos, a fidelização da política externa contra os interesses do país, a naturalidade com que se abusa da máquina administrativa com propósitos de reeleição — esta última, prática antiga, multipartidária — mereceriam repúdio universal nas urnas, impedimento, escárnio.   

Mas quem pode saber disso tudo se ainda há risco para uma mídia altiva e independente? Assim como financiamento público para campanhas, não seria necessário criar um fundo para garantir uma mídia que não seja governamental ou partidária? Toda turbulência é, de uma forma ou de outra, fascista. Isto é, sua origem é de natureza essencialmente autoritária.

Talvez a maioria esmagada prefira não dizer nada em público. E qual o problema se escolhermos só depositar nossa opção no segredo de uma urna? O fato é que, historicamente, sempre que se discute muito política, significa que estamos bem perto de um engarrafamento.  

Saudades das urnas em que você sentia a cédula na mão. Quando se tinha certeza de que o voto tinha uma existência quase corporal, com valor espiritual. Não esse irritante barulhinho virtual, que dá mais a impressão de intervalo da Rede Globo do que depósito de uma informação com potência para nos arrancar do marasmo.

Tags: antagônicas, barulhinho, cédula, marchas, mídia, urna, voto

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.