Jornal do Brasil

Quarta-feira, 23 de Julho de 2014

Coisas da Política

Hamlet e as demoditaduras

Paulo Rosenbaum - médico e escritor

Talvez a frase mais marcante num dos textos mais reproduzidos na história da literatura seja o que se segue ao icônico monólogo “ser ou não ser”. O que vem depois muitos já decoraram. Mas há uma destas pequenas sentenças de Shakespeare particularmente atraente. Trata-se do trecho que Hamlet se refere à insolência dos governantes. Como se vê não é de hoje.

 A insolência (raiz do latim insolente, que não é do trato, comum, atrevido, injurioso) define muitas coisas. Significa que o Estado e bando se arrogam regalias negadas aos cidadãos. Se precisamos mesmo dele, e precisamos, que seja rotundamente reformado. Que não se petrifique naquilo que parece em consolidação e não só por aqui: uma entidade acima dos julgamentos. A personificação maliciosa de quase todos os males.

Mas, e as urnas? Neste status quo elas podem estar perdendo significado simbólico. Deixam de refletir o poder de transformação que as eleições deveriam representar. O sentimento de anomia que vivenciamos é o salário de um Estado que se faz presente onde deveria sumir e se faz ausente onde é imprescindível. Eis a fórmula para o desgoverno. As vozes que deveriam se fazer ouvir não têm onde vibrar. E, dependendo do grau de hegemonia que o Executivo construiu sobre o Judiciário e o Legislativo, o teor de manipulação das maiorias ultrapassa e avilta a linha da legitimidade.

Se a isso alguns chamam de democracia direta, talvez seja mais  honesto voltar a uma ditadura explícita, com ou sem a chancela eleitoral. Nela, ao menos nos sentimos mais dispostos para opor alguma resistência.

Vejam o patético caso da Rússia. Neossaudosistas hasteando suas bandeiras do antigo império. Essa, Putin ficará devendo aos trapalhões da diplomacia ocidental. Pois as flâmulas estavam arquivadas o tempo todo lá, guardadas nos porões para saudar o heroísmo do novo líder, uma mistura de Stálin e czar. 

Também é o caso da China, que usa o modelito centralismo partidário na moita, economia livre sem liberdade civil.  E nenhuma potência ocidental os incomoda, desde que mercado interno e as importações continuem crescendo. Os direitos humanos, vejam só, chegam a ser um princípio secundário bastardo: aceitam-se suas premissas desde que não interfira com as boas normas dos negócios. Parece que as ditaduras, de toda estirpe, são boas para o business, como se vê na África e no Oriente Médio. Exceção aos tiranos de Cuba e ao nepotismo revolucionário longevo da Coreia do Norte. Ali, os negócios ainda são vistos com a desconfiança típica de quem não compreendeu a mínima do funcionamento do mundo.  

O predomínio da ideologia, por aqui grosseiramente difundida do ensino básico à pós- graduação, é que ela não forma mais estudantes: são todos partisans da boa causa.

A massa de intelectuais cooptada pelos mais diversos tipos de subsídios — dos financiamentos para pesquisas aos cargos de assessores — aproxima o esqueleto funcional do Estado ao escândalo. Um escândalo que se esconde sob o manto do heroísmo ideológico. Mesmo entendendo a ideologia como uma alusão à realidade, mesmo sendo indulgentes com as escolhas equivocadas de quem identifica o totalitarismo como opção de regime ideal, e mesmo exercitando a tolerância com aqueles que querem chegar ao poder por via democrática, para, depois, suprimirem essa mesma democracia, em nome das predisposições acima enumeradas.  

Deveríamos nos preocupar menos com uma perspectiva de intentona totalitária — eles ainda esfregam as mãos quando pensam na ideia de um reino pleno. Graças a um capricho da idiossincrasia territorial, diversidade cultural, fusão étnica e confusão enraizada, isso seria irrealizável por aqui.

Mas não é isso que teria o poder de nos tornar insones, mas o empobrecimento cultural e didático de uma geração que ou está sendo ensinada na cartilha única e anacrônica dos ideólogos ou submetida a uma educação de péssima qualidade, um dos pilares de sustentação do populismo grosseiro. A maioria não sabe o que é socialismo, comunismo, capitalismo.

São as injustiças sociais que alimentam a busca por soluções mágicas, aquelas que redimiriam o mundo das mazelas. Mas justiça social sem a contrapartida das necessidades humanas de arte, atenção ao espírito, gentileza e solidariedade nos faz atolar na tentação de degolar as contradições. Alguém poderia dizer: como, se elas são a própria base de nossa composição anímica?  

 

Tags: governantes, história, insolência, literatura, monólogo, shakespeare, socialismo

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