Jornal do Brasil

Sábado, 20 de Dezembro de 2014

Coisas da Política

Assassinar o cinismo ideológico

Paulo Rosenbaum - médico e escritor

Um líder consulta, o ditador manda — desmanda. Um prioriza o consenso, o outro, a vontade pessoal. Uma liderança coordena, o autocrata desorganiza. Enquanto um decodifica os símbolos da turbulência para saneá-las, o áspero se mistura a ela. Um democrata sabe que inexiste interesse honesto em fomentar fissuras sociais. Procura cimentá-las com medidas que atendam os contratos vigentes. Um inimigo da democracia finge que dialoga enquanto, na barganha de cargos e salários, concentra poder. O déspota não consegue delegar nem abrir mão da autoridade para acumular potência. 

Não se trata de contrastes maniqueístas, apenas carregar nos estereótipos para que o entendimento de cada coisa ainda obedeça um pouco ao vernáculo da língua brasílica, vilipendiada pelo discurso político partidário. Sim, porque negociação política virou plano de carreira. Estratégias para o país se transformaram em aplicações de curtíssimo prazo. Uma outra diferença entre o totalitário e o líder que aceita a pluralidade é que o primeiro despreza a dissonância. O outro sabe que depende dela para reformular o que provavelmente está no ritmo e no rumo errado. O estadista percebe que a crítica não visa apenas uma desforra de quem perdeu o pleito eleitoral mas uma tentativa de alertar: o mar pode ser o mesmo, não a maré.  Já quem tem carranca na cara se comporta como se toda contradição significasse ofensa pessoal.  

O tamanho da crise significa exatamente esse diálogo náufrago. E, sem diálogo, o que temos é o clima de confrontação que excita os nervos mas paralisa o país. O significado de mais de 40 milhões que pularam para a classe média e o resgate de uma camada significativa de gente para um nível socioeconômico (mas não ainda educativo, eis a omissão fatal) aceitável e decente é um avanço que vai sendo borrado pelos equívocos sistemáticos, não só na continuidade de programas como na manutenção do anacronismo. O clima protecionista, ufanista e patrimonialista que trava, ao mesmo tempo, liberdade e negócios. Que sufoca quem tem sede de horizonte. Que faz desconfiar quem ainda tinha um fiapo de esperança.

Sem o plano real nada teria sido possível. Sem a estabilidade da moeda estaríamos ainda na corda bamba do FMI. Sem a inédita transição civilizada não teríamos o que foi conquistado. Sem os primeiros anos em que a política do PT era similar à do PSDB jamais a estabilidade e a confiabilidade estariam preservadas. Ali, por questões diversas, a continuidade e a consciência superavam os planos totalitários de longo prazo. Um pragmatismo benévolo que fez com que atravessássemos para a fase em que a The Economist chamou de decolagem do Brasil.

Um dos motivos da corrosão da representatividade e a progressiva decadência da governabilidade é a surdez generalizada. Quando políticos são chamados para consultas, todos esperamos mais do que palitinhos para definir ministérios e mais seriedade diante do momento agudo que vivemos. Esperamos responsabilidade e afirmação daqueles que se candidataram para atender não os interesses da maiorias mas a atenção a toda a sociedade. Uma sociedade democrática não aceita ser patrulhada por convicções dogmáticas.  

Para que a democracia viva, é preciso assassinar o cinismo ideológico.  

Tags: autocrata, consenso, democrata, ditador, fissuras, líder, políticos

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