Jornal do Brasil

Quarta-feira, 16 de Abril de 2014

Coisas da Política

Para não amanhecer em Caracas

Paulo Rosenbaum*

Não é difícil ficar aflito testemunhando o que está acontecendo pelas ruas. Afora o número incrível de passionais que querem marchar contra e a favor, o País soluça e há cada vez mais gente querendo que uma democracia jovem resolva tudo. Tudo ou nada. Legiões de diagnosticadores, multidões de juízes imediatistas e um império de convictos. Curiosamente são os mesmos torcedores fanáticos que migram da sede dos partidos para a arquibancadas com as organizadas.

 A questão pode ser menos nosso sistema mental classificatório e muito mais a incapacidade de guardar conosco o que realmente achamos das coisas e das pessoas. O que antes era "pensar cá com meus botões" não serve para mais nada. Não se pode mais ter uma opinião e simplesmente guardá-la. É preciso envia-la na mala digital, caso contrário você não é ninguém.

A vida social passou a ser teste de comunicação, onde as pessoas tem que passar pela provação da múltipla escolha. É como se todos precisassem ser adjetivados. Como se o senso comum tivesse o direito adquirido de dar nome a tudo. Nomear no sentido de encaixar atributos em tribos predeterminadas. Nomear no pior sentido: encontrar pela tipologia qual é o sistema de notação que aquela pessoa adota. Como se todos nós fossemos vulgares códigos de barra identificáveis à distância. Se é assim, para que serve mesmo o diálogo? E ainda tinha gente pensando que talvez pudéssemos ter sido definidos e catalogados como seres indefiníveis quando não passamos de rótulos alugados.

Ninguém precisa saber o que você pensava quando aquela classe social ascendeu. Sim, aquela mesmo que começou a invadir aeroportos, filas de sorveteria de shopping e entradas de cinemas. Aqueles espaços tidos como território privado.  O jogo social requer certa privacidade para nossos racismos, preconceitos e aversões.

Por que reclamamos se fomos educados para isso? Classificar, discriminar, e medir de cima abaixo. Como cada um se veste, com quem anda, que carro usa e onde mora. Fomos todos infiltrados, doutrinados, cooptados pela ideia de que estamos divididos por faixas de holerits. Os invasores que ultrapassarem as linhas imaginarias que traçamos, são ameaçadores. E para que não sejamos sitiados por tamanha estranheza, merecem rechaço, humilhação, frequentemente ambos.

Não se pode perdoar quem não pertence ao clã e isso tem mão dupla. 

Se alguém mais arrumadinho aparece no lugar mais simples é bacana, filhinho de papai. Há chances de que seu julgamento seja televisionado para que todos façam dele juízo definitivo: sacana abastado, argentado, capitalista.

E se você ousar confessasse por aí que não pertence ao PT nem ao PSDB? Que não é socialista nem fascista, nem ateu nem crente, comunista, oportunista, esbanjador, muquirana, preconceituoso ou racista. Se você não tem time é apartidário. E se não toma partido é alienado ou egoísta. A turba vai se incomodar porque isso equivale dizer que a despreza. Não é o que você intencionava. Mas quem se importa? O imperdoável para uma tribo é sentir que há pessoas que não desejam pertencer a ela.

O que se faz numa democracia jovem é quase o oposto de criminalizar a alteridade. É vital impedir que alguém entorne o caldo, que não se derrubem as regras do jogo, que não se burlem as normas, que impeça-se a espoliação do patrimônio público, que não se embole a separação dos poderes, que obstaculizemos os incendiários e os pseudo-estadistas.  Para que uma jovem democracia sobreviva é preciso mais do que urnas eletrônicas, marketing político e manobras fiscais.

É preciso aprender a desejar a presença da oposição, apreciar o contraditório, enaltecer a crítica.   E com um pouco de sorte não amanheceremos em Caracas.

*Paulo Rosenbaum é médico e escritor.

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