Jornal do Brasil

Terça-feira, 29 de Julho de 2014

Coisas da Política

Rojões sobre a democracia

Paulo Rosenbaum - médico e escritor 

Ou estamos todos muito enganados, ou há uma espécie de cisão entre os interesses dos governos e o da população. Esta percepção parte de dois princípios operativos muito simples: em primeiro lugar há posturas radicais substituindo as diplomáticas, o que já por si revela uma dissonância entre quem governa e quem é governado. Vale dizer, o papel dialógico de quem faz política fica cada vez mais reduzido.

Ou o político é um agente executivo disfarçado de agente legislativo, ou é suficientemente inepto para gerir a coisa pública. O segundo princípio é a observação de que, mesmo que não seja toda esta a catástrofe anunciada, há evidentes dificuldades econômicas. Tudo bem, todos os países sofrem ciclotimias financeiras no mundo tido como globalizado. O insuportável é a manipulação e a camuflagem, guiadas pelo apetite eleitoral. Os brasileiros querem ser tratados como adultos e saber de todos os detalhes de como anda a economia do país. Isso é importante para poder escolher quem assume os erros. E também saber que não faz mais nada do que a obrigação quando acerta.    

Um dos princípios caros à democracia é que as pessoas, representadas no poder, pudessem elaborar as leis e diretrizes de acordo com as necessidades destas mesmas pessoas.

Há muito isso deixou de acontecer.

Eleitos, substancial quantidade de legisladores e membros do Executivo começam a colocar seus próprios  planos em prática. Ninguém deu cheque em branco nem direito a voo solo. Muitos destes líderes, em flagrante divórcio com as necessidades e prioridades das pessoas, pensam que sabem melhor o que é bom para as pessoas. Raiz primeva da distorção da representação.

O aumento abusivo de impostos, as medidas impostas goela abaixo, abuso da propaganda, uso aético dos recursos públicos, as decisões que mascaram as informações e medidas tomadas de improviso para poder conquistar mais um pleito são todas elas incompatíveis com a vida democrática. 

Por isso está difícil enxergar o “pleno Estado de Direito” que deveria ter sido uma das conquistas efetivas em uma regime democrático. As decisões arbitrárias aceleram perigosamente a sensação de que chegamos a um lugar sem saída.

Fica clara a tentativa de intimidar e controlar a opinião pública, de jogar o povo contra os tribunais, de fazer coro contra as instituições que ainda funcionam em seu papel essencial de fiscalizar e cobrar dos governos as ações que dele se esperam. A rigor, a única oposição de fato ao regime em curso é o Poder Judiciário. E assim deve continuar a ser, já que o Legislativo não consegue cumprir seu papel regulador e sacrificou sua autossuficiência para votar projetos escandalosamente tutorados pelo Executivo. 

Quem está fazendo jogo perigoso e apelando para táticas disrruptoras pode estar agindo de forma autóctone, mas também pode estar a soldo de gente que tem interesse em desestabilizar a sociedade. E a premissa para desorganizá-la é colocar todos contra todos em um pé de guerra, o que só nos traz mais dor e  sofrimento. 

Nunca um poder moderador e a lucidez de algum estadista inexistente foi tão vital para que as vitrines não sejam quebradas antes que se possa pelo menos vislumbrar um pouco da cor do futuro. É neste contexto que obtemos o caldo no qual a violência e a intolerância  crescem. O cinegrafista morto é um símbolo, não só de um ataque covarde e criminoso mas a vítima desconhecida e indefesa de um sistema que se exaure da forma mais melancólica possível: o desmantelamento da estrutura duramente construída depois que o povo recuperou o direito de votar.

 

Tags: cisão, diplomaticas, enganados, governos, POPULAÇÃO, posturas, radicais

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