Jornal do Brasil

Terça-feira, 2 de Setembro de 2014

Coisas da Política

Fraudnet

Paulo Rosenbaum - médico e escritor 

A noticia recente é de alguém que está sendo enganado na internet a cada 18 segundos no Brasil. Dezoito segundos é o tempo de vestir um pé de meia, andar 20 passos, o tempo médio que alguém se prepara para redigir o cabeçalho de um e-mail. Esta avalanche de fraudes via net acompanha o crescimento das transações comerciais pelo mundo. Estimativas apontam para um futuro no qual a transação virtual será hegemônica.

O que significa mais ou menos o seguinte: o mundo virtual é um ambiente muito mais falseável do que o mundo real. Parece óbvio, mas isso é quase uma ofensa aos defensores da integridade e do progresso representado pelo predomínio  do espaço cibernético sobre a dimensão pluridimensional da existência.

Os viciados em tecnologia e todos os que são coagidos ao vício (como se adaptar sem aderir?) não se dão conta da enorme quantidade de embustes e falsificações por trás das telas. E a fantasia de segurança não se esgota. É como se precisássemos acreditar — assim como a morte — que só acontece com os outros. Mas se a cada 18 segundos se registra uma ocorrência, a epidemiologia da fraude indica que suas chances de ter os dados violados são enormes.

Por exemplo, entre no site de algum governo e tente um download de um formulário. Alta probabilidade de que você será presa de roubo de dados. Compre numa loja de quinquilharias nacional ou internacional, e seu cartão de crédito junto com todas as informações pessoais será repassado para terceiros. Quanto mais campos informando “não repassaremos seus dados para ninguém”, pode ter certeza, logo mais você estará comprando o que nunca pediu. A ideia do “site seguro” é, ao mesmo tempo, uma idealização e uma fraude em termos. Hackers entram em qualquer sistema, como provaram na invasão do sistema de defesa norte- americano.

Podem ser gênios do mal, mas é também um plano de carreira, muitos depois ganham bons empregos como agentes protetores de empresas graúdas. Afinal, não é justo que a violação de privacidade seja um privilégio da NSA.

O que assusta não é a ingenuidade coletiva acerca do monitoramento da vida privada de todos sobre todos. É mais complexo do que isso, pois, ao mesmo tempo, verifica-se quase o desejo de ser acompanhado por alguém. Isso há de indicar algum tipo de perturbação psíquica específica de nossos dias. Gente da área de saúde mental deve estar em assembleia permanente para definir como se chamará e que número ganhará no próximo CID (Código Internacional de Doenças) esta subespécie da síndrome de Estocolmo.   

Conclusões preliminares devem indicar que o desejo de ser monitorado, o documento de consentimento da violação da privacidade, deve fazer parte de alguma síndrome narcísica na qual o cidadão precisa sentir que é apreciado, desejado ou coleciona amigos eletrônicos. Pois, há de fato legião de voyeurs, loucos para saber o que você está comendo, com quem esteve à tarde ou quais seus hábitos higiênicos

O bombardeamento não selecionado de imagens e a poluição gerada pelo excedente de informação banalizam o raro, o sutil, as pequenas particularidades agradáveis e importantes de compartilhar mas que, infelizmente, passam despercebidas no mar de bobagens irreflexivas

Tags: bobagens, bombardeamento, Fraudes, imagens, internet, noticia, SAÚDE

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