Jornal do Brasil

Sábado, 1 de Novembro de 2014

Coisas da Política

Estado do contentamento 

Paulo Rosenbaum - médico e escritor 

Será que somos todos cidadãos inoportunos no meio dum mar de oportunistas? Uma pena que a oposição seja assumidamente tão pusilânime e que as lideranças não se responsabilizem. Que diferença com os ucranianos, que sem um milésimo do nosso vandalismo protoanárquico, botaram o governo contra a parede, e não houve um putin que os paralisasse.   

É inegável que nosso grau de insatisfação esteja perto do insustentável. Por que reclamamos tanto? Estudos psicométricos de felicidade (é diferente de contentamento) mostram que, superadas as questões de carências essenciais como fome e sustento básico, o excedente não traz mais felicidade, pelo menos não proporcionalmente.

Isso nos leva mais uma vez à justa desconfiança do senso comum que, sem relativizar, costuma estabelecer uma equivalência, entre bem-estar e dinheiro. Então, de onde provém a insatisfação que parece varrer as sociedades? Nem as orientais escapam, basta analisar a preocupante epidemia de mortes por excesso de trabalho na sociedade japonesa, já batizada de “karochi”. O "karochi", do qual ouviremos falar cada vez mais, é apenas um dos últimos degraus da contradição nas sociedades industrializadas.   

Se o que buscamos é felicidade, ou estados correlatos,  o que estamos fazendo com nossas vidas nas quais as prioridades são ditadas pelo ritmo do business? Não é nem mais possível responder atrás do que estamos correndo, porque já nos ultrapassamos no quesito automatismo e impulsividade. Alcançamos um ponto no qual a inquietude não pode ser aplacada por ansiolíticos nem a depressão domesticada por drogas. Vale dizer, podem, mas fármaco algum resolve os aspectos que envolvem a decadência. Sempre que esta palavra emerge, há uma tentação de lhe atribuir valor moral. Talvez até haja, mas prometo que não é este o caso. Neste artigo, decadência é apenas a distância que nos separa da realização. 

Por isso, e considerando que as avaliações mostram que a proximidade com a natureza é essencial para haver contentamento, aquele país preserva 60% de suas florestas, deixando muitas de suas riquezas naturais semi-intactas, ainda que longe de inexploradas.

Que os economistas se descabelem dá para entender. Máquinas de cálculos foram feitas para somar, aumentar, amontoar e acumular. Que os administradores avaliem tudo como loucura e recaída obscurantista também é compreensível. Mas o que será que diriam os habitantes se pudessem de fato escolher em que tipo de lugar querem viver? Devastação com luxo, ou preservação com vida mais simples? Aglutinados em prisões domiciliares, ou com a liberdade de passear sem medo de ser trucidado ou espoliado? Escolheríamos desertos erodidos ou florestas vivas? 

Não é nada fortuito que várias comunidades pelo mundo estejam retomando a ideia de vida no campo. Voltam a surgir núcleos de co-habitação e divisão dos meios de produção. Na Dinamarca, por exemplo, já existe mais de uma centena destas comunidades.

Para se conquistar estados próximos aos da felicidade o segredo pode não ser produção, mas fazer com que ela seja compartilhada. Não porque precisamos ser iguais, muito menos pela força de espadas e da cartilha dos ideólogos. É importante que as oportunidades sejam distribuídas de forma justa.

Gianetti da Fonseca fez brilhante síntese da perversidade de um país que custeia supérfluos quando tem um enorme déficit de casas com esgoto tratado. Trata-se de um paradoxo, para contornar a palavra aberração. As eleições e escolhas que o Estado diz que faz para todos, mas não para nós, não frustram só as pessoas, paralisam a própria vida.

Num documentário, o sorridente ministro do bem-estar do Butão parece estar de posse de algumas das respostas que perseguimos. Por lá o Estado pensa diferente. Um exemplo? O Butão poderia oferecer energia para a vizinha Índia, ávida por crescimento econômico e, portanto, carente de energia. Seria um grande negócio para o país vizinho, relativamente pobre. Geraria um superávit favorável e aumentaria a capacidade de investimento do Estado. Seria razoável pensar que isso seria de interesse nacional, pois não é assim que a cabeça dos governantes costuma operar?

A resposta quase óbvia deveria ser sim. Vamos sacrificar as corredeiras, fazer hidroelétricas e produzir energia para fornecer a quem queira.   

Para ele não é tão simples.

Segundo ele, as pessoas que habitam um país buscam essencialmente contentamento. O Butão, ao contrário de muitos países, parece levar a sério a obstinação do papel do Estado. O Estado deve ser apenas um veículo para que os habitantes expressem seus desejos e necessidades. O Estado, quando despeja as pessoas, se transforma num fantasma. E todos sabemos como funcionam parasitas que não têm mais uma função. 

O governo, se ainda está construído para servir o povo, deve ser o indutor da felicidade, uma enzima que acelere o desenvolvimento humano e aproxime as pessoas. Se o Estado não pode fazer isso por seus cidadãos, que ao menos não obstaculize suas trajetórias. 

Tags: felicidade, inoportunos, lideranças, oportunistas, povo

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