Jornal do Brasil

Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2014

Coisas da Política

Ócio sem sentido

Paulo Rosenbaum - médico e escritor 

A questão da concentração de pessoas em lugares públicos e privados foi analisada por vários ângulos, com evidente ênfase na ideologia de quem observava. Alguém nomeou “fenômeno cultural” enquanto outras preferiram carregar na tinta para dizer que era uma extensão das manifestações juninas. Entretanto, a questão que comanda este tipo de concentração é o número de pessoas jovens e sem atividade que há uma década não encontram lugar ao sol. Os “nem, nem” apresentam um problema real de falta de oportunidades, mas um dilema ainda mais de falta de perspectivas.

E esse pode ser o ponto central e pouco tratado da questão. Ter e encontrar um lugar significa achar a identidade que permite ao sujeito a aquisição de uma certa paz. E o apaziguamento é essencial numa sociedade. Especialmente para quem tem a inquietude do porvir em ebulição.   

É essa dificuldade em definir a identidade que está em crise na sociedade contemporânea. Estas pessoas não sabem o que buscam, muito menos encontraram lugares onde realizar estes encontros. Ouvindo o depoimento de alguns deles, ficou claro que não querem nada além de buscar espaços onde possam encontrar e serem encontrados por pessoas. O detalhe é que muitos nunca se viram pessoalmente. São entidades de carne e osso mediadas por vozes, imagens e mensagens.

Ao mesmo tempo em que o lazer se transformou em encontros nos nichos de consumo, a análise do discurso evidencia que os valores são os mesmos de qualquer agrupamento desta faixa etária: ver e serem vistos, exibir marcas e grifes, apresentar a evolução material e testar suas popularidades. Este último talvez seja o motor mais evidente desta novíssima modalidade de tour urbano.

No que diferem as classes sociais? Em poder aquisitivo? Para esta análise isso é periférico.

Talvez não seja tão trágico, mas é no mínimo melancólico que uma geração esteja tão à deriva. Talvez sempre tenha sido assim, mesmo para os que já passaram para outras etapas da vida. A diferença talvez é que a procura do ócio já tenha sido formatada sob perspectivas menos estreitas e narcisistas. É provável que haja algum grau de idealização, mas enxergava-se algum movimento distinto nas gerações anteriores. A necessidade de encontrar hobbies e motivações particulares estavam condicionadas menos por motores externos, e o cultivo das relações se dava de forma menos maciça e impessoal.

É esta a relação que traz a grande novidade. É como se a facilitação extrema de comunicação das redes sociais concedesse a esta geração não só a possibilidade da popularidade instantânea como a promessa de que é esse um objetivo per se. Trata-se de uma espécie de simulacro daquilo que os homens públicos sempre produziram com seus cartazes, horários de propaganda obrigatória, discursos e palanques.  Ninguém presta muita atenção nos descaminhos que a obsessão por fama, necessidade de adoração e busca por veneração pode trazer aos indivíduos.  Ela é importante.  Esta imitação involuntária, a cópia de um modelo culturalmente esgotado mas com enorme força simbólica pode ter afetado definitiva e talvez irreversivelmente o modo com que nos relacionamos.

Isso transcende os jovens, que agora migram para redes sociais mais dinâmicas, diretas e menos vigiadas por “coroas” abelhudos. O Facebook já vem acusando: caminha para ser hegemonicamente atividade de gente de meia idade e de velhos.

Diante de telas de conexões incalculáveis a ideia de vida social e vida em grupo assumiu dimensões inquietantes. Num fenômeno mundial e multietário, para cair no agrado das massas, grandes contingentes de pessoas tentam achar formas de sedução para captar adeptos, clientes, amigos virtuais e curtidas. Muitos já vivem em função da conectividade e se tornaram psiquicamente dependentes dos retangulozinhos vermelhos, sinal de aprovação para o que acabou de ser postado.

Vamos então produzindo legiões de seguidores e celebridades parasitas. Talvez todas elas sejam. Neste caso, parasitas porque muitas vezes não há nada artístico, curioso ou exuberante em muitas pessoas que conquistaram, com enorme esforço, o estatuto pop. Celebridades, porque não importa mais o mérito, o que vale é a recompensa de sair do anonimato. Poucos sabem que longe de ser uma maldição ele é talvez a única, provavelmente a última garantia de ainda se estar em posse de uma vida privada. 

Tags: concentração, juninas, lugares, manifestações, pessoas, públicos

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