Jornal do Brasil

Sábado, 23 de Agosto de 2014

Coisas da Política

A libertação do óbvio  

Paulo Rosenbaum - médico e escritor

Nobody was ever meant To remember or invent What he did with every cent (Robert Frost)

O comissário do escritório de registro de patentes nos EUA, Charles Duell, fechou o lugar no início do século 20, alegando que “tudo que pode ser inventado já foi inventado”.  

A humanidade sempre se depara com essa divisão. A metade Duell de nós vive com a expectativa de que somos e permanecemos óbvios. De que não há muito como escapar da monotonia e de que não há  modo de conceber o novo. Tudo seria uma espécie de replay-reprint. Seríamos o carbono universal daquilo que sempre existiu.

Exilados na maldição do status quo, estaríamos condenados ao imobilismo. E o que esperar de uma civilização não criativa? Pouco, assim como quase nada de uma geração que cresceu sob a educação baseada em televisão e mídias sociais.

A principal lacuna do aprendizado contemporâneo é não poder reconhecer que os recursos essenciais nunca foram os externos.  Se há uma premissa no processo educativo, ela seria promover e desenvolver nossos instrumentos internos.  Uma pedagogia libertária só acontece com reconhecimento dos talentos e aptidões de cada sujeito. Vamos no sentido oposto ao enaltecer a técnica sem arte, e por isso estruturalmente confinados por uma cultura que está na raiz dos equívocos sociais.

No pseudodilema metrópole X periferia, temos que nos perguntar por que o centro se tornou o epicentro dos desejos, a principal categoria de sucesso. Por que assimilamos valores com suspeita neutralidade? No final, é a grana que governa nossas vidas. Isso não significa que o capitalismo seja uma maldição como pregam os  ideólogos que só conseguem pensar por cartilhas. Nem o paraíso. Mas as sucessivas experiências nas sociedades onde vigorou a ditadura do proletariado comprovaram: elas conseguem ser mais censoras, atrasadas e discriminadoras que outras.  Casta por casta, prefiro aquela na qual ainda caiba ser dissidente e sobreviver.

Sem corrigir as distorções na cultura, a redução das injustiças sociais não produzirá os efeitos favoráveis que se esperam. Paz social, solidariedade, alguma fraternidade e, se não for abuso, liberdade são frutos de processos educativos construídos, não de isonomia monetária.

Uma sociedade mais justa deveria ser uma sociedade que discute suas prioridades, conduzida por estadistas efêmeros que aceitam e compreendem seus papéis transitórios.

O problema é que os valores não estão na mesa. Ninguém dá um fuleco por eles. Seguimos num processo educacional, em uma sociedade que discrimina sem formar. O que privilegiamos são aquisições de instrumentos que garantam nosso triunfo na competição. O objetivo ainda é subir no pódio ao final da corrida: performance,  eficiência, rendimento e resultados.

Não é mais possível aceitar isso como evolução. Tampouco a volta das aulas de educação moral e cívica, como recentemente pediu uma senhora em programa político partidário. Que tal ensinar a filosofar sem ideologia e professores motivados para estimular a imaginação dos alunos?

Estamos o tempo todo sendo subliminarmente informados que o mais importante é a vitória. Encarar a vida como uma disputa é uma decorrência dessa percepção. Assim, aprendemos que temos que nos defender dos demais. Afrontados, passamos a enxergar os outros como competidores. Exige-se e exigimo-nos superação. Nada contra o progresso e a ambição, mas não dá mais para disfarçar que estamos numa maratona cabra-cega. Aceitar este modelo de cultura com tanta naturalidade é endossar as deformações.

Deveriamos é nos sentir mais responsáveis uns pelos outros e, assim, automaticamente, diminuir nosso vício na onipresença dos governos. Estes, como pais maquiavélicos que são, torcem, ativa ou passivamente, que permaneçamos divididos, isolados em nichos controláveis. O amadurecimento da democracia é um pesadelo duplo para os autoritários: como ninguém patenteou a criatividade, aprender a depender menos do Estado é uma forma de se libertar do óbvio.  

Tags: comissário, divisão, escritório, governos, humanidade

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