Jornal do Brasil

Quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Coisas da Política

Breve ética da vida virtual

Paulo Rosenbaum - médico e escritor

Aplicativos para datas de aniversários são mesmo revolucionários: lembramos de pessoas que demoramos anos para esquecer. Às vezes, a falta de memória é um alivio. Mas o que é que te custa cumprimentar um desafeto? O bonzão da turma, o nerd podado, a professora sacana da graduação? Antes, esquecer dos eventos natalícios era comum, em compensação a ofensa passava rápido. Hoje em dia? Simplesmente imperdoável. Como pode haver uma desculpa?  É só clicar, e no ato o outro já sabe que você despendeu tempo. Na lógica do capitalismo acionário selvagem, tudo se limita a negociar tempo. Mesmo que espremer o mouse não dure nada, eis o germe do network, a força que comanda nossos dias. No mundo digital países inteiros podem afundar ou emergir em horas, que dirá de gente de carne e osso? O mundo está mais veloz, ainda que ninguém possa dar certeza de que isso é uma virtude.

Numa época cibertecnológica, sob o império das startups, criaram-se novíssimas obrigações. Por exemplo, você está intimado a responder rapidamente. Bonificações da vigilância dos passos alheios? Informações preciosas. Nunca foi tão fácil desmontar desculpas esfarrapadas. Seu contato fugia de você com a batida “vida corrida”, “ando ocupadíssima"? Basta ficar atento, uma hora dessas ele vai postar piadas e fotos. Quem precisa de Snowden para saber que somos monitorados? Pior, automonitorados. O anonimato é que nos protegia desses micos. Hoje, ninguém mais pode se esconder. Até os eremitas foram defenestrados.

Já existe uma psicometria, as provas empíricas evidenciam: é mais fácil brigar online. Na net, ofensas tendem a soar mais sérias e pessoais do que realmente são. Já o contrário não é verdadeiro. Reconciliação online é coisa rara. No velho telefone, havia sempre o conserto através do tom da palavra, o mal-estar contornado com fala macia, suspiros ou chantagem emocional. A voz pode quebrar a sisudez de quem queria encrenca. Não é a mesma coisa quando você grava e envia a mensagem nos androides e smartphones, ali não há diálogo, a conversa é truncada como num walk talk.

Além disso, temos que aguentar as abreviaturas, gírias e sons onomatopaicos que inventaram nas redes sociais. São de chorar. Da risada kkk aos símbolos, são todas reduções insuportáveis além de musicalmente desastrosas.

Analisem também a quase extinta tradição das missivas autógrafas, sim, aquelas enviadas pelo correio. O tempo se encarregava de dissolver o mal-entendido.  Terminar um relacionamento por carta poderia nem mesmo se concretizar, caso o desencantado fosse ágil o suficiente para interceptá-la antes que alcançasse a futura ex. Quantas histórias mudaram graças à lentidão postal e aos falcões peregrinos sem gps?

Eis uma era onde o instantâneo amarra o arrependimento. No telegrama, por exemplo, sempre a obrigatoriedade da economia de palavras. Torpedo não tem volta. Não tem nada mais direto. Mandou, chegou. Seja lá qual for seu provedor, qualidade do cabo e velocidade contratada, as sentenças se apresentam chapadas, lineares, às vezes obtusas. O que se escreve fica lá, grafado, esculpido na rocha do espaço é para sempre. Não tem choro nem dá para corrigir. O "não era bem isso que eu quis dizer" ou o "você não entendeu direito" não funcionam como antes. Definitivamente, somos uma sociedade cada vez mais impulsiva.

Há que contabilizar nosso orgulho também. A maldita cobrança pela coerência impede o remorso. Quase que perdemos o direito de mudar de ideia. Isso é um problemão: estar permanentemente de acordo com você mesmo é um porre.  

Paulo Rosenbaumrosenb@netpoint.com.brrosenbau@usp.br

Tags: aniversários, falcões, histórias, porre, telegrama, torpedo

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