Jornal do Brasil

Quarta-feira, 16 de Abril de 2014

Coisas da Política

Más notícias e a mídia interna

Paulo Rosenbaum - médico e escritor 

A má notícia tem o poder de transformar o conjunto de normalidades em uma montanha de equívocos. É quase da mesma fonte motivacional que nos torna fascinados pelo bizarro, pelo grotesco e pelo exótico. Adoramos pontos fora da curva, mas raramente os exploramos pelo lado interessante: criatividade, o inusitado, a plasticidade e a flexibilidade. Não que possamos ser acusados de pessimistas, os velhos do Restelo, ou abutres esperando anúncio de infortúnios. As más novas acabam tendo o poder de romper com a normalidade. Não nos deteríamos na manchetePedestres andam livremente pelas calçadas mas imediatamente correríamos para ler Pedestres são arrastados da calçada até o fosso

É no mínimo curioso como somos especialmente atraídos pelo trágico. Digo, particularmente atraídos. A tragédia nos inspira solidariedade, compassividade e evoca o sentimento gregário. Ao mesmo tempo, também nos ocorre, simultaneamente, quão sortudos fomos por não termos sido nós as vítimas do infortúnio. É que ao contrário da fantasia do senso comum não somos unos. Somos constitucionalmente fragmentados e o tempo todo tentando recolar pedaços para parecer vasos uniformes. Seria mais honesto nos definirmos como trincas avulsas que se aglutinaram por interesse.  

Mas, e quanto às más notícias quotidianas que se repetem à exaustão? Que os governantes não fizeram o que tinham que fazer? Que a sociedade reage, não por diversão ou ganas de vandalizar mas contra a repetição da velha inércia? Liberadas, raiva difusa e o ódio sem foco,  são perigosos e carregam a centelha do autoritarismo.

É que as pessoas sabem, vagamente, intuitivamente, o que precisa ser feito para que todos tenham uma vida melhor, mas nunca pararam para perguntar pela metodologia. Esperam isso de quem foi eleito. Mas quem disse que eles detêm o método? Ao mesmo tempo, nos recusamos a fazer parte de algo que nós mesmos temos o poder de determinar, pelo menos por enquanto, diretamente, através das urnas.

Será que perdemos a sutileza? Aquele sentimento que permite uma interpretação  lúdica da realidade? Ou o massacre psíquico da rotina foi tão bem sucedido que agora o bom humor depende dos comediantes? Se de fato perdemos o refinamento necessário para enxergar atrativos no comum, no dia a dia, na vida como ela é, dependeremos então de artefatos químicos para nos imunizarmos contra o crônico desalento das notícias?   

Mas isso pode estar sofrendo uma inversão. A realidade mais desta vez se incumbiu de nos pregar a peça. O manancial de escândalos e novas deprimentes que chegam até nós por todos os lados pode estar finalmente encontrando uma espécie de teto. Um basta que alcançou o zênite. Desenvolvemos tanta tolerância ao mal feito que podemos estar passando à resignação, último estágio do abandono.  

Se pretendemos saídas, talvez a solução não seja expectativa por novas externas mas desenvolver aquelas mídias raras, livres e sem censura, as produzidas de dentro para fora. 

Tags: criatividade, equívocos, flexibilidade, inusitado, normalidades

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