Jornal do Brasil

Quarta-feira, 10 de Abril de 2013

Coisas da Política

Homenagem aos volumes

Jornal do BrasilPaulo Rosenbaum

Uma palavra comum como "livro" tem nas origens definição controversa, mesmo com os recursos aparentemente inesgotáveis da web. Ainda bem que ainda existem dicionários físicos. Segundo Antenor Nascentes grafa-se livro, do latim libru, porque primeiro se escreveu sobre folhas e cascas de árvores e deste uso são derivadas na linguagem corrente "folha" e "livro". 

Em nossos dias a velocidade das transformações é muito maior do que a capacidade para assimila-las. Está criado um paradoxo. Senhor paradoxo. A revolução cibernética e a era digital estabeleceram dilemas  perturbadores e sem debates satisfatórios. Ainda que os efeitos das revoluções só possam ser avaliados retrospectivamente, nada justifica o silencio. 

Ninguém faz a menor ideia de onde a cultura on line nos levará. Nem como nos sentiremos nesse novo lugar.   

A sociedade da informação é só festejada - e talvez deva mesmo ser - mas é vital que alguma lucidez prevaleça sobre as sínteses fáceis. 

No quesito informação, o excesso tem um efeito similar à escassez. A polissemia também enlouquece. Navegando pela net depara-se com um mar revolto e poluído por resíduos que chega a ser difícil saber o que e quanto se pode aproveitar. Não é só o bombardeio de imagens, a saturação do marketing, quantidade de terabites ou informes disponíveis que somos incapazes de processar. O problema principal é como filtrar e usar o que se colhe de uma rede não retrátil e  sempre em expansão. 

Seriam necessários pelo menos alguns meses, quiçá anos, para analisar a simples informação da palavra "josé" se a digitarmos para pesquisa na ferramenta do Google: 1.9000.00 que se realiza em exatos 0,29 segundos.  

Se pelo menos fosse só com "josé". Mas isso se repete indefinidamente, e a cada palavra encontramos novas abrangências e desdobramentos, as quais por sua vez se abrem em janelas infinitas em outras sequencias e aberturas, e assim em diante. A busca robótica têm o estranho poder de se inverter e se replicar à nossa revelia. A ponto de nos perguntar: quem usa quem?   

Em vez de nos libertar, a infinidade abusiva de portas abertas pode funcionar como cadeira cativa para assistir nossa própria paralisia.   

As palavras se transformaram em glossários e léxicos e as derivações transbordaram para muito além dos velhos dicionários e enciclopédias. 

De repente, sob o espírito da unificação do saber, a linguagem encolhe ao se esparramar pelo abismo plano do ciberespaço. Região sem nenhuma fronteira ou malha de contenção. 

Na pesquisa labiríntica e involuntariamente anárquica -- como acaba sendo o surf digital - mobilizamos cada vez mais filtros para conseguir alguma objetividade.  

Ainda assim, perdemos algo. 

Pois diz-se que estamos enfrentando uma crise sem precedentes no mercado editorial e na política e que tudo, ou quase tudo, se deve à gula avassaladora das grandes corporações sobre  editoras e livrarias. Segundo outros, as brochuras estão com os dias contados e os assassinos são monitores luminosos que não fungam ou ocupam espaço. Ambas devem ser verdadeiras e ninguém duvida que já mutilou um mercado que aqui nem chegou a se desenvolver plenamente por aqui (4 livros por ano) especialmente se nos compararmos com o restante dos leitores do mundo. 

É nesse ponto que vai um depoimento sobre essa preciosidade tridimensional que está no corredor da morte. A Biblioteca Brasiliana, doada por José e Guita Mindlin à USP, e cujo acervo acaba de encontrar abrigo definitivo no campus da cidade universitária é uma espécie de resposta teimosa aos que prenunciaram o fim desses objetos de papel.  

Mindlin, como disse Antônio Cândido na inauguração: "não era só um colecionador no sentido estrito da palavra: ele lia os livros."  Num país que ainda enfrenta um analfabetismo escandaloso e um considerável déficit educacional, o hábito de ler ainda permanece um culto estranho e incompreensível para a maioria da população.

 Mesmo assim, os livros seguem sendo objetos complexos e muito pouco compreendidos. Seria pena que sumissem antes de uma exploração mais radical. José Mindlin compreendia isso perfeitamente e foi o provável leimotiv para sua fissura bibliofágica (bibliofilia seria reducionista já que se limita ao apreço). Como tantos vícios do bem, este acabou se tornando o objetivo permanente da vida, vale dizer sua vida. 

As informações que os livros trazem, suas especulações, diálogos e fruições são apenas parte do prazer e alegria de ler. Entretanto há deleites de outra natureza, sensoriais: o cheiro do papel, a textura da capa, a descida táctil até o rodapé ou a simples sensação de posse desses retângulos. 

Claro que podem e devem ser digitalizados, colocados on line, vendidos para leitura em tablets e mercantilizados como chips de bolso, só não vale comparar o prazer real com o virtual. Melhor encarar que muito além do dilema - senão falso, superficial - entre o digital e o tomo em papel, está a ignorância na compreensão do que significa essa poderosa máquina de diálogos que chamamos livro. 

Mas se for mesmo verdade e num destes duelos estúpidos alguém tiver que morrer, vale parafrasear Mindlin e assumir que talvez não valha mesmo a pena viver num mundo sem livros. 

* Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de "A Verdade Lançada ao Solo"

Tags: brasiliana mindlin, Coisas, JB, livro, política, política editorial, sociedade da informação décit educacional

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