Quem precisa de carisma?
Quando o artigo já estava adiantado e ia em outra direção, o Jornal Nacional, em edição extraordinária com sua tradicional musiquinha, anunciou a morte de Chávez. Agora oficialmente. Chávez deve ter falecido e sido embalsamado há pelo menos duas semanas. Mas o timing do anúncio foi decretado pela inteligência cubana. E veio com as acusações do vice Maduro (o poste chavista) insinuando que a CIA estaria por trás de sua doença. Herdeiro do estilo, na mesma noite expulsou os diplomatas americanos.
Imediatamente, uma imensa rede de repetidores e papagaios assintomáticos vieram à internet postar a mesma falta de inspiração e desonestidade intelectual que patrocina a calúnia e o boato sem fundamento que grassa nas redes sociais. Ainda que o alcance de uma rede de espionagem e inteligência viesse a envenená-lo com tálio ou qualquer outra substância oncogênica, o mais provável é que ele tenha sido vitima de doença natural.
Era câncer no duro, e ninguém merece adoecer assim.
De qualquer forma seu desaparecimento representa um viés mortal para o populismo bolivariano. Chávez extinguiu-se sob a veneração de parte do povo venezuelano. Comoção e choros histéricos invadiram as últimas noites em Caracas.
A mitologia construída de caudilhos latino-americanos vai além da inspiração em personagens históricos ou em suas influências teóricas. Parece passar pela ilusão de salvador. Chávez queria ser Bolivar, assim como Lula sonha em ser a reencarnação pocket de Lincoln. Ele se defendeu, dizendo que não estava se referindo aos atributos físicos do ator que vivenciou o presidente americano no filme homônimo.
Inútil demonstrar a falta de equivalência moral entre estes e aqueles. Simon Bolivar e Abraham Lincoln tiveram papéis extraordinários como líderes e estadistas, tanto na liberação do colonialismo hispânico nas Américas e na abolição da escravatura respectivamente, ambos tinham um projeto republicano de governo e gestão.
Completamente diferente dos dois contemporâneos citados que sempre tiveram, e nunca esconderam isso, de um lado grande preocupação com os problemas sociais e a pobreza, de outro, projetos políticos personalistas, identificados com centralização, acúmulo de poder e um modo muito peculiar de conceber a democracia.
Se Lula soube contemporizar mais do que Chávez, não foi por espontânea vontade mas por imposição das circunstâncias. A escandalosa entrega dos pugilistas cubanos aos guardiões de Havana, a catastrófica aproximação da diplomacia com lideranças esclarecidas como Ahmadinejad, Assad e Kadafi, o episódio da quase expulsão do jornalista norte americano e a incessante busca por colocar cabresto na mídia denotam o flerte com o autoritarismo.
Não fosse o acuamento diante dos escândalos em sua gestão, notadamente o mensalão, muito provavelmente teríamos mais hegemonia e torniquetes contra a liberdade de expressão do que tivemos nos últimos 12 anos.
Já Chávez, um coronel que várias vezes tentou chegar ao poder através dos golpes de Estado e na paga também chegou a sofrê-los, praticamente não encontrou resistência em seu país, e diante de uma oposição que beirava a nulidade (e cometeu o erro histórico de boicotar na primeira disputa presidencial onde Hugo se sagrou vencedor), conseguiu impor seu discurso. Sempre subsidiado pela venda de petróleo ao país que ele mais literalmente demonizava.
Agressivo e histriônico, Chávez escalou em medidas oportunistas como programas sociais paternalistas, prolongamento do próprio mandato, reeleições sucessivas (14 anos no poder), interferência nos assuntos internos de vários países latino-americanos e intermináveis desagravos a si mesmo.
Sei que hoje ninguém mais tolera aprender nada com quem quer que seja. Hoje a Venezuela é um país desabastecido, decadente na produção de petróleo, com assustadores índices de violência urbana (Caracas é a capital mais violenta da América do Sul) com uma inflação em aceleração, além de um parque industrial sucateado.
As relações comerciais com a Venezuela sob o chavismo foram boas para o Brasil? Podem ter sido. Mas há questões bem mais importantes do que o saldo comercial.
Seu socialismo do século 21 — um arremedo provinciano e fanfarrão da esquerda selvagem — é mais um nostálgico e deprimente episódio sobre os trópicos e a fábrica de caudilhos em série que temos produzido.
A arquitetura modeladora dessas figuras messiânicas terceiro-mundistas usa a mesma tinta e argamassa: fala fácil e longa, promessas inapreensíveis e muito pouco compromisso com as instituições. O ingrediente principal, e também o mais perigoso: carisma (do grego charisma, ato de amabilidade, favor, graça).
Quem nasce com o dom, quase sem esforço atrai sobre si chuva de votos e com o tempo torna-se eleitoralmente imbatível. Na prática, trata-se da capacidade de seduzir sem que se tenha uma boa (ou nenhuma) razão para ser seduzido.
Não é costume, mas não custa se perguntar se esse dote tem servido de fato à totalidade das pessoas.
Até aqui, a história desmentiu isso. Categoricamente.
