Jornal do Brasil

Quarta-feira, 10 de Abril de 2013

Coisas da Política

Contra a hegemonia

Jornal do BrasilPaullo Rosenbaum - médico e escrittor

Não sei se o nome do novo quase partido está correto, nem sei se o que precisamos é de sustentabilidade, ou mesmo de redes. Na verdade basta de redes. Mas que seja. O input de Marina Silva para criar o novo partido é o único (sim, negrito) fato novo na politica brasileira em muitos anos. Ouvi no hotel um grupo de brasileiros “se a BBC noticiou em seu telejornal mundial deve ser importante”.

Mas a sensação externa, digo do senso comum, é que ela tentará fazer um governo da pureza. Oxalá seja assim, e algo ela deverá ao espirito extrativista de Chico Mendes, que traz a marca da elasticidade ingênua e branca. Da seiva e da borracha. Já avisou que não aceita doação ao futuro partido de produtores de tabaco industrial e bebidas alcoólicas. Por isso fica-se dividido entre o sarcasmo e a apreciação de um heroísmo descabido. Mas não será o descabido o essencial para resgatar o sagrado das coisas publicas? Talvez tenhamos que reavaliar o que é ou não é absurdo, e inverter a lógica que nos guiou até aqui.  Admirável, ainda que a insustentabilidade de forças políticas não subsidiadas pelo capital, deu no que deu. No Brasil recente o subsídio entrou depois para garantir que quem quer que fosse o vencedor teria os habituais privilégios e regalias.

Voltando a ela e seu partido, não à pessoa mas às forças sociais que ela representa. Elas são as realmente dignas de nota. E, mais ainda, por ela  estar em condições de, se não vencer o pleito, pelo menos vai desbalancear seriamente a arquitetura politica em curso. Como já fez há pouco, impedindo que o partido governista levasse as eleições presidenciais no primeiro turno. O impacto deste fenômeno e os desdobramentos com sua abstenção posterior ainda merecem analises mais extensas.

Sob condições muito distintas, Marina aglutina hoje muito mais do que os descontentes, petistas frustrados e a multidão anônima que acha ela com cara de “gente boa”, como se ouve por ai. Ela aglutina credibilidade. Item escasso no mercado da (des)confiança mundial. E associa a ela,  com credibilidade, tema completamente abandonado nas últimas gestões: o meio ambiente. Tandem poderoso. Pois a força que ela cria pode fazer varias trajetórias: sucumbir às necessidades e acordos que convém ao triunfo eleitoral (o autêntico revolucionário sempre padecerá da síndrome do dia seguinte aquele em que se chega ao poder) ou manter a arrogância da independência.

A arrogância pode ser uma virtude se ela está ajustada a um objetivo generoso, só que em politica costuma ser fatal. As perspectivas reais de sucesso estão, todavia, longe de serem boas, já que o outro lado está carregado de gente que faz muito bem feito. Por isso Marina é uma quimérica contraperspectiva. Ainda que um sonho, suas aspirações e ingenuidade (piora quando ela procura demonstrar sagacidade politica) são a verdadeira bandeira que podem levar o pais a um palmo acima.

Não se faz a mínima ideia de quais seriam suas equipes de governo, nem se seu partido teria força para conduzir a desburocratização e a as reformas necessárias para que os projetos sociais não murchem na praia. Nem como lidar com gente bem mais agressiva e violenta que a indústria dos produtos alcoólicos e do tabaco.

Escolheram um nome tampão para o partido (espero) ate que surja algo melhor. Mesmo assim, vale apoiar para ver se saímos da jogatina polarizada entre os mesmos de sempre e aqueles que fingiram não serem os mesmos de sempre.

Pode não dar na BBC, vale esperar as próximas ediçoes. O inédito sempre tem um gosto da mudança.

 

Tags: arrogância, bbc, heroísmo, mudança, partido, sarcasmo

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