Ratzinger em Fátima
Conheci Bento XVI quando ele era só o cardeal Joseph Alois Ratzinger e estava investido nas funções de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (antigo Santo Ofício, de nefasta memória). Cabeça branquinha e batina preta, eu o vi por duas vezes no Santuário de Fátima, aonde ele tinha ido presidir as cerimônias do dia 13 de outubro de 1996.
Na primeira estive ao lado dele quando falava para uma repórter da Rádio Renascença, de Lisboa. Ratzinger tinha acabado de chegar de Coimbra, aonde fora visitar a irmâ Lúcia das Dores (a terceira vidente, que morreria em 13 de fevereiro de 2005), e eu estava na portaria da mesma casa do Santuário, onde ambos estávamos hospedados. A segunda vez foi no dia seguinte. Eu queria assistir à missa na Capelinha das Aparições, e quem era o celebrante? Ele, mesmo, Ratzinger, que voltaria para Roma no mesmo dia.
Ao chegar de Coimbra, esperava o prefeito do antigo Santo Ofício a repórter lisboeta. E ele não poderia escapar a uma pergunta que estava na moda: que segredo era esse que Nossa Senhora confiara aos videntes e pelo qual eles estavam dispostos a dar a própria vida? Para mais, a revelação do segredo era esperada, com muita ansiedade, para o ano 2000. O segredo fora escrito numa carta pela irmã Lúcia das Dores, que a mandara para o bispo de Leiria e Fátima, dom José Alves Correia da Silva. Este, por sua vez, achou por bem remetê-la depois para o órgão da Santa Sé, de que era chefe o cardeal Ratzinger. Agora, o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé limitou-se a dizer:
— A terceira parte do chamado Segredo de Fátima não encerra nada de catastrófico. Afinal, o verdadeiro conteúdo, quer da Revelação, quer do segredo, é sempre o mesmo, isto é, o convite à conversão dos corações, à fé, à comunhão com Cristo.
Acusado de ultraconservador, o pontífice romano mostrou com esta resposta uma faceta sua não muito conhecida ou menos apreciada: o pastor que deseja o maior bem do seu rebanho e tem o coração de um verdadeiro pai. Outra não é a impressão que fica de um encontro dele com um jornalista alemão antes de Ratzinger ser eleito papa (2005):
— Quantas vias existem para uma pessoa encontrar a salvação?
Ratzinger parou por um instante e respondeu:
— Tantas quantas as pessoas que nascem todo dia.
