Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Coisas da Política

Há mais o que fazer

Jornal do BrasilMauro Santayana

Nada contra os gramáticos e seu ofício. Mas esse Acordo Ortográfico com os portugueses sempre pareceu forçado e inútil. Não é a ortografia que separa as duas línguas, o português brasileiro e o português de Portugal. É a própria visão de mundo, que se reflete na língua culta (escrita), e na conversação coloquial.

Durante muito tempo, a comunicação cotidiana no Brasil se fazia com a língua geral, que desapareceu, pouco a pouco, enquanto o português brasileiro se afirmava nos púlpitos, na poesia, nos documentos oficiais. Enriquecida dos vocábulos ameríndios e das línguas africanas, a língua brasileira começou a distinguir-se da que se falava em Portugal,  contaminada, com o tempo, de francesismos e anglicismos.

Entre os grandes escritores portugueses do século 20, destacam-se alguns que viveram no Brasil, e se deixaram influenciar pela nossa linguagem própria, como foram, entre outros, Miguel Torga e Ferreira de Castro. Torga passou a adolescência em Leopoldina, Minas, e Ferreira de Castro viveu dos 12 anos até a idade adulta nos seringais e rios amazônicos. Os dois se encontram entre os maiores escritores portugueses do século 20. E um dos melhores livros sobre a vida amazônica da primeira metade do século 20 é o de Ferreira de Castro, A selva. É na leitura de Saramago e Aquilino Ribeiro, pelos brasileiros,  e de Jorge Amado e Guimarães Rosa, pelos portugueses,  que os dois universos intelectuais se encontram.

O Acordo pode ter agradado aos que o sugeriram e trabalharam na simplificação ortográfica, mas desagradou a grandes escritores de um e do outro lado do Atlântico. Os jornais portugueses, e seus melhores escritores, o rejeitam. Muitos acusam o Brasil de exercer imperialismo cultural e econômico nas negociações do Tratado. Em nosso país, fora alguns gramáticos (nem todos) e alguns jornalistas, o desagrado é geral.

Com o abastardamento da linguagem, na redução do vocabulário e na particular ortografia das redes virtuais, uma linguagem escrita que assegure a reprodução exata dos fonemas é necessária, a fim de que se preserve a linguagem e se mantenha a mesma forma culta em todo o território brasileiro.

Sinais gráficos como o trema e o acento circunflexo são indispensáveis para manter a identidade entre as letras e os sons.   

A presidente Dilma Rousseff agiu com prudência ao prorrogar por mais três anos a obrigatoriedade do cumprimento do Acordo. Ela atendeu à pressão dos portugueses e dos países da CPLP, mas prestou grande serviço aos brasileiros. Seria o caso de os nossos jornais, que entraram no jogo dos gramáticos, voltarem à ortografia em uso. 

É de se esperar que esses três anos devolvam o bom-senso aos legisladores daqui e “d’além-mar”, para deixar as coisas tal como elas se encontram. Temos mais o que fazer, no Brasil e em Portugal, do que banir o trema, o acento circunflexo e o hífen. E, sem tais recursos, fica mais difícil aprender a falar bem, e a pensar com clareza.

Tags: bom-senso, gramáticos, línguas, portugueses, sinais gráficos

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Comentários

2 comentários
  • Anna Maria Tavares Sobral

    Estou em completo acordo, caro Santayana! Que se simplifique na linguagem coloquial e nos twiters da vida, tudo bem, mas que se preserve a linguagem culta, fiel à etimologia. Ah, que saudade do Latim, que nos ensinou a escrever bem em português! Sem receio de ser um dinossauro, defendo a posição do Governo.
    Anna Maria Sobral

  • Marcos Lucio Pinto

    Como sempre, nosso mestre Santayna dá um show irretocável de conhecimento e lucidez.Bravo!!!
    Penso que esta reforma ortográfica estapafúrdia só tem duas intenções: fazer alterações para vender "novos" ou revisados livros e dicionários e -o que considero pior- punir os que sabem e que estudaram a norma culta da língua. Os que não tiveram interesse em aprender corretamente, continuarão sem tê-lo com ou sem reforma. Empobrecer ou nivelar por baixo uma língua riquíssima como o português, é atestado de parvoíce ou mal uso de neurônios, para não ser deselegante e ferir suscetibilidades, digamos assim.
    Marcos Lúcio

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