Jornal do Brasil

Sexta-feira, 22 de Junho de 2018 Fundado em 1891
Coisas da Política

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Psicologia do cheque em branco   

Jornal do Brasil Paulo Rosenbum

Numa dessas extraordinárias ironias da vida, a grande prova de que o ex-ministro vitorioso em São Paulo falhou na principal tarefa educacional que é promover o raciocínio crítico foi sua própria eleição. Nada contra ele, mas tivessem os habitantes do estado mais populoso da nação sido realmente instruídos e treinados na arte de discernimento, não teria passado um cheque em branco a um preposto do grande chefe. Reconheçam-se seus méritos, que mais desta vez, saiu-se bem na arte da prestidigitação. A República é o atual parque de diversões do grande comandante, que agora elege bem mais que postes: cria bonecos infláveis que enche ou esvazia conforme a veneta. 

Somos obrigados a admitir que a paixão por partidos lidere e celebridades fazem parte de um mesmo processo psicológico, que merece reflexão e muito estudo. A grande mensagem desta eleição infelizmente é uma má notícia. Estamos diante da consolidação da hegemonia personalista. Há quem dê de ombros. Parece sem importância que neófitos apareçam do nada e ganhem as eleições. Mesmo assim, as implicações são trágicas. Captem o significado profundo e a arbitrariedade dessa concentração de força. Com as vontades pessoais, e as vinganças saciadas, quais serão os próximos apetites?

Como tudo apresenta outro lado, o estrondoso fracasso do partido governante no Norte-Nordeste mostra que o Brasil é mais complexo e inapreensível do que se  planejava. É o risco que se corre ao reduzir um país tão plural. Mas, o que não se considera em toda sua ambivalência não é a corrupção mais ou menos generalizada, e sim a reafirmação de que o assalto aos cofres nacionais serviu a “causa maior”. Segundo essa lógica, ela é, de uma só vez, garantia, aval, indulto e endosso. É essa convicção de que as leis devem se adaptar aos propósitos pseudossalvacionistas que caracteriza a atual Brasília.

A redução do eleitor a um elemento amorfo do curral eleitoral é um fenômeno antigo. E a política que manipula as massas — sim, há outra — e violenta as regras do jogo é tanto pior quanto mais concentrado é este poder numa pessoa ou num grupo de indivíduos. Isso é mais que a representação, é a face concreta, substantiva e presente do mal. Para quem se arrepia, outra versão: o oposto do bem público. A gula centralizadora se revela na enorme concentração de impostos drenados ao Planalto enquanto os municípios esmolam verbas.

Esta entidade abstrata chamada Estado, sob regime presidencialista concentrador,  favoreceu as aventuras dos políticos contemporâneos. O objetivo final é um só: tornar as pessoas presas do medo. Quando milhões de reféns têm a resistência vencida e o vencedor impõe suas estratégia aos vencidos, duas posturas emergem: fanatismo e descrença.

Os fanáticos podem degenerar facilmente para hordas protofascistas (como as que agrediram as pessoas que protestavam contra os condenados no dia da eleição) e  carta branca aos radicais entusiasmados pelo crédito eleitoral conquistado. Enquanto os descrentes são uma resposta desesperada à visualização do panorama sórdido que têm à frente. O resultado prático é mais engajamento para aloprados e afastamento, decepção e esgotamento para os demais. O diagnóstico de “fadiga de material” e os “ventos de mudança” são duas polaridades desse mesmo problema. 

Quem não quer mudança? Mas, e se for para pior?  A maior abstenção desde 1998 — e vai crescer — registra este momento histórico. Como pensava Arnold Toynbee: "O maior castigo para aqueles que não se interessam por política é que serão governados pelos que se interessam". Mas uma breve analise da realidade mostra que faz todo sentido: para que votar se os melhores são sempre preteridos em função dos mais ardilosos? 

Atropela-se, se for preciso mata-se, vale qualquer negócio para chegar ao sucesso. E não é assim por aí no mundo? Na raiz das cifras da abstenção recorde há uma desilusão com a política, pois esperava-se que ela fosse uma atividade completamente diferente do mundo dos negócios privados que conhecemos. A expectativa nem sempre consciente era de que os políticos tivessem a chama sagrada, o velho espírito dos sacerdotes. A diferença, ingenuamente deduzíamos, não poderia estar só no dinheiro publico, muito menos se usado para fins privados.

Em nossas anacrônicas construções mentais, a política tinha que ser e ter um ideal maior, uma lição de abnegação, um exemplo de altruísmo, o jogo limpo. Caretice nossa. Não é nada disso. A real é que ali se concentram os interesses mais materiais, os tipos mais egoístas, as raposas mais espertas, e às vezes a moeda não é só papel moeda, mas poder. Muito poder.

Retire-se o dinheiro e distribua-se melhor o poder com descentralização de impostos, e veremos decrescer o desvio, o mal feito, e o incomparável descalabro com as contas públicas. Mas isso vai contra a “causa”, não faz parte da estratégia. A gravíssima falta de segurança (60 mil assassinatos em um ano, mais que muitas guerras civis) e o renascimento de milícias partidárias truculentas que desrespeitam normas jurídico-institucionais, toleradas pelo poder central, representam bem os impasses que nos aguardam mais à frente.

A menos que a educação vingue para valer, para sair do imbróglio precisaremos contar com um grande golpe de sorte. 



Tags: celebridades, discernimento, eleição, políticos, prestidigitação, veneta

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