Jornal do Brasil

Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018 Fundado em 1891
Coisas da Política

Colunistas - Coisas da Política

Populismo blindado e Maquiavel

Jornal do Brasil Paulo Rosenbaum

Diz-se que tudo que entra na linguagem popular tem razão de ser. Quem já não ofendeu alguém usando a palavra “maquiavélico” ? Mas será que estamos fazendo jus ao filósofo Niccolò Machiavelli (1469-1527)? Sua famosa frase é mal citada e pessimamente instrumentalizada por políticos de todas as grandezas. Raramente, a frase toda é contemplada em seu contexto: "Na conduta dos homens, especialmente dos príncipes, contra a qual não há recurso, os fins justificam os meios". Ouviram? “Contra a qual não há recurso”, isso significa que, nesse caso, teremos que aceitar resignados as arbitrariedades do príncipe e os meios que Sua Alteza julgar apropriados para nos governar.

O  que está em jogo neste segundo turno das eleições é muito mais que a óbvia antecipação da eleição presidencial de 2014: é a tentativa da atual administração federal de consolidar seu populismo blindado. É o atual estilo de governar na América Latina. É imperioso que a sociedade interponha recursos contra o príncipe.

O candidato do governo federal até convenceria como figura que se força à simpatia e a ingenuidade de um acadêmico que está para se tornar político, mas o caso é outro quando se analisam suas companhias. O problema é que ele se tornará mero instrumento nas hábeis mãos de quem o alçou até lá. Nesse caso, o morubixaba já declarou que faturar em Sampa é “questão de honra”. Ora, nenhum pleito deveria ser, por definição, questão de honra, pois a política além de ação coletiva, quando colocada a serviço dos caprichos pessoais, já degenerou num absolutismo plebiscitário.

Por isso mesmo há que se questionar o famoso aforismo positivista de que “contra fatos não há argumentos”. Há. Muitos. O primeiro deles é que um eventual  triunfo do candidato do governo federal em São Paulo representaria a consagração do jeito vale-tudo de fazer política. O que torna a reflexão sobre o mensalão mais assustadora é que ele pode se universalizar e portanto legitimar-se como praxe política. Obviamente, nem todos no partido têm essa índole, mas é público que para os chefes esse é o caminho.  

Sim, há uma política baseada em vingança e lealdade revestida com silêncio premiado que lembra a lei do bico calado das organizações criminosas. Nesse sentido, estamos todos comprados, comprados pelo sucesso, pela economia acelerada, pelas benesses que o Estado promete, pelas vagas no ensino superior, pelo acesso ao consumo.  

O problema na verdade é que muitos deles ainda consideram o país um regime de exceção e o sistema, digno de ser derrubado. Acordem! Encontrar soluções passando por cima das leis é a verdadeira conspiração contra a democracia, não importando os resultados finais. O suborno, portanto, não vem só da corrupção ativa dos políticos, mas de nossa submissão alienada aos critérios que nos têm sido enfiados garganta abaixo. Diz-se nos fóruns internos do partido que vão “tocar fogo” no país para exorcizar as condenações. Claro, isso será assim que passar as eleições, já que as pesquisas mostram que a esmagadora maioria das pessoas entrevistadas, de todas as classe sociais, acham que as condenações foram justas, que o governo federal esteve envolvido, que gostariam que a impunidade diminuísse.  Também já se ouve, à boca pequena, que haverá pressão sobre a presidente para indultar os réus. Se isso realmente acontecer, a fogueira subirá ao status de incêndio de grandes proporções.

É contra esta lógica que a percepção da opinião pública resiste e aos poucos está aprendendo a se defender. Assim, mais uma vez, pode se repetir o fenômeno do voto útil em São Paulo, não exatamente contra o ex-ministro da Educação mas contra tudo o que ele representa, contra quem governará por ele ou com ele, tanto faz. Isso não significa que seu oponente tenha a coalização dos sonhos ou um candidato modelo, mas qual é a alternativa? O problema é que em São Paulo, quiçá no Brasil, sempre foi assim.

O pragmatismo pode funcionar para as alianças e conchavos mas não solucionam questões vitais da cidade. Quando questionados, eles dizem que nada disso interessa... e dá-lhe refrão: tiramos milhões da miséria! Aplausos, e nada mais que a obrigação do Estado com a justiça social. Mas o que isso tem a ver com crimes comuns,  corrupção e aspiração totalitária?

Para fazer uma política justa e alcançar o bem-estar que atinja a todos, o foco deveria estar nas cidades, no dia a dia dos bairros, dos espaços públicos, na reunião da periferia com o centro. Isso, infelizmente, não acontecerá. Ganhe quem ganhar, as ações serão todas dirigidas e pensadas considerando outro foco, o plano nacional, a maldita rampa. Uma lástima para os habitantes da polis que, mais agora, terão que esperar a vez. Fossem os políticos realmente republicanos, não enxergariam mandatos como questão pessoal, nem o poder como instrumento arrivista.

O tênue consolo vem do futuro. À revelia do poder, a opinião pública brasileira amadurece com suor e lágrimas, e é com toda essa umidade que a corrosão da blindagem virá antes do que se pensa.



Tags: alianças, bem-estar, conchavos, homens, opinião pública, política, pragmatismo, príncipes

Compartilhe: