Jornal do Brasil

Sexta-feira, 20 de Julho de 2018 Fundado em 1891
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A anarquia da internet

Jornal do Brasil Mauro Santayana

Hackers invadiram os endereços eletrônicos oficiais de empresas do Estado  e de alguns governantes, entre eles os do prefeito de São Paulo e da presidente Dilma Rousseff. Essa é a outra face da tecnologia. De repente descobrimos que a rede mundial de computadores, nascida da intenção de troca sigilosa de informações entre os centros militares e as universidades, se tornou o grande painel em que cada um grafa o que quiser, e se mesclam os conselhos mais sábios, os lugares comuns e as sentenças ilógicas; as verdades prováveis e as intrigas sórdidas.

A vida dos homens se revela e se justifica na identidade, ou seja, na singularidade da pessoa em si mesma. Associa-se a essa ideia a autonomia de cada um, não só em seu movimento no espaço mas, também, nas suas convicções, próprias ou assimiladas. A privacidade cuida, assim, da preservação da identidade. Na vida social, o indivíduo não está obrigado. Ele é o que diz ser: a personalidade que criou para viver em sociedade – e personalidade vem de persona, máscara. A dissimulação - como o mimetismo de alguns animais - é um ardil, que pode ser punido pelas exigências religiosas, mas, muitas vezes, exigida forma de sobrevivência.

Homero, em uma das mais agudas passagens da Odisseia, mostra como a negação da identidade social é necessária à sobrevivência. Quando fura o olho do ciclope Polifemo e o monstro pergunta, aos brados, quem o havia cegado, Ulisses responde, bem alto: Meu nome é Ninguém.

A resposta de Ulisses, à parte a linearidade da narrativa, dá oportunidade a algumas especulações. Podemos acreditar que Homero quisesse, pelo seu herói, dizer que, no fim de tudo, todos somos ninguém. Mas a sociedade reclama que sejamos conhecidos por um nome e, pelo menos, alguns atos que praticamos como membros da comunidade em que vivemos. Assim, somos pelo menos dois, além de outros seres ocasionais: o ser interior, que procura e deve preservar-se, e o exterior, que só se revela conforme o seu interesse. Nessa consulta recíproca, entre o ser que é, e o ser que se manifesta pela linguagem, exerce-se a dialética do viver.

Nesse aspecto, há um inquietante paradoxo na vida moderna. Enquanto alguns buscam preservar sua privacidade, outros, mediante os portais de relacionamento, mostram-se em toda a  intimidade, até mesmo desnudando-se diante das webcameras – como ocorreu recentemente com um parlamentar dos Estados Unidos.

Há também uma região  de penumbra, entre o ser profundo, o da identidade nuclear, e o ser social, em suas relações com a sociedade. Nesse espaço da vida,  o indivíduo não pensa, apenas, mas age. É ali que surgem os segredos, que é de seu direito manter. Dizem respeito à sua vida afetiva, à memória de seu passado, enfim, a alguns atos  que lhe convém ocultar. São as mentiras que a psiquiatria permite, os santos absolvem e a lei admite negar: ninguém é obrigado a revelar atos que o prejudiquem. A experiência mostra que todos nós mantemos uma poderosa máquina neurônica de censura, capaz de traduzir, na conveniência do diálogo ou do texto escrito, muito do que realmente pensamos sobre o interlocutor ou o destinatário de nossas mensagens escritas.

É provável que busquemos outras formas seguras de comunicação à distância, e deixemos a internet como meio secundário e inconfiável. Não nos basta só a preocupação de que uma tempestade magnética solar de proporções inimagináveis venha a apagar todos os registros eletrônicos do mundo. É interessante relembrar que o registro escrito da linguagem, tendo sido mais sólido e duradouro ao valer-se das pedras e tabuletas de argila cozida,  seja hoje  confiado à intocabilidade dos elétrons, à volubilidade da nuvem.

Confesso que me tenho recusado a participar de comunidades virtuais. Como jornalista, e uma vez que a impressão sobre o papel parece condenada a desaparecer, devo valer-me desse meio, em que o provável leitor me encontra – e me restrinjo a essa imposição do meio a meu ofício.                                    

Sentimo-nos ameaçados de que a nossa vida pessoal, com seus sofrimentos, pecados eventuais e repetidas incertezas, venha a ser de domínio público. Uma coisa é a vida pública, com os atos de interesse geral da sociedade, como são os praticados pelos governantes e políticos. Outra é a vida privada, mesmo a dos homens públicos, quando esses atos não interferem no destino da sociedade em geral.

Enquanto houver fronteiras entre as nações e  conflitos naturais de interesses entre os povos, alguns segredos de Estado devem ser preservados.



Tags: dilma, hackers, mauro santayana

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