Jornal do Brasil

Segunda-feira, 22 de Janeiro de 2018 Fundado em 1891

Coisas da Política

As guerras inúteis

Mauro Santayana

Os Estados Unidos não aprenderam com as vicissitudes: o maior cuidado com os planos bélicos deve ser dedicado à retirada. Isso é tão importante no nível tático, nas batalhas e combates isolados, quanto na estratégia da guerra como um todo. O mesmo vale para os atos cotidianos da política, porque deve ser também a conduta da vida comum. Quando temos um projeto, podemos prever as suas dificuldades e estabelecer a atitude a tomar, se ele não der certo.

A grande nação do Norte é geograficamente inexpugnável, situada entre os dois maiores oceanos, com um forte aliado ao norte, o Canadá, e um débil e constrangido vizinho, o México, ao sul, mas isso não a torna invencível nos conflitos internacionais. O mito de seu poderio militar se funda na superioridade tecnológica, mas as armas, por mais potentes sejam, são um complemento do combatente. Mais poderosa do que os artefatos é a vontade humana. Foi essa vontade, transformada em bravura, que derrotou os norte-americanos no Vietnã e os soviéticos no Afeganistão.

Na guerra iniciada em 1979, o Talibã e seu aliado, Osama bin Laden, contaram com todos os recursos norte-americanos – mas essa ajuda não foi decisiva para a derrota de Moscou. O que a decidiu foi a disposição dos afegãos para o combate, em defesa de suas terras áridas, feitas, em sua maior parte, de desertos e depressões, de altas montanhas rochosas, com poucas áreas férteis, algumas delas cultivadas de papoula, a matéria-prima do ópio e de seu derivado, a heroína.

Os Estados Unidos sabem que não podem continuar no Afeganistão. Não fossem as dificuldades políticas internas, diante do poder de fato que domina o país – o famoso complexo industrial-militar, denunciado por Eisenhower há 50 anos – consolidado na escancarada aliança entre o Pentágono e Wall Street, e Obama cumpriria o compromisso, assumido em campanha, de determinar o retorno imediato das tropas ao lar.

Mais uma vez, o Pentágono e o Departamento de Estado não foram capazes de planejar a retirada no momento certo, mediante a combinação dos atos militares com os entendimentos diplomáticos. O descompasso entre as duas instituições é antigo, nos Estados Unidos, e corresponde a uma usurpação de deveres: os diplomatas querem conduzir a guerra, e os militares pretendem impor as diretrizes políticas. Esse conflito sempre foi arbitrado pelos presidentes, quando os chefes de Estado dispunham de real autoridade sobre a nação.

Neste momento, acuado pelo desemprego, pelas falcatruas criminosas dos banqueiros e pela rearticulação da extrema direita, Obama começa a perder todos os seus cabedais políticos. Está, a cada dia mais, parecido a Nixon. A diferença é que dificilmente, com sua inteligência do mundo, apelará para expedientes clandestinos, como o de Watergate.

Ao examinar os problemas da retirada depois de uma batalha perdida, Von Clausewitz, em seu clássico estudo sobre a guerra – Vom Kriege – diz que a derrota em uma batalha (e a ideia pode ser ampliada à guerra completa) destrói mais a energia moral dos exércitos do que a pujança física. E conclui o pensamento, ao afirmar que, a menos que as circunstâncias se invertam, uma segunda batalha terminará com a derrota completa, se não acabar na destruição definitiva do vencido.

O secretário da Defesa, chefe nominal do Pentágono, Robert Gates, confirmou que já se iniciaram as conversações preliminares com o Talibã, e as justificou, dizendo que as guerras sempre terminam nos entendimentos políticos. Há dois reparos que podemos fazer a Gates. O primeiro é o de que as guerras seriam evitadas com as conversações políticas – e o segundo Bush, mais insensato do que seu pai, usou de todas as artimanhas para a invasão do Afeganistão e do Iraque, em busca do petróleo, sob o pretexto de vingança contra o atentado de 11 de Setembro, que ainda permanece em mistério. Bush, como se recorda, obstinado em invadir a região, depois de dez anos de bombardeios de desgaste sobre o território do Iraque, se recusou a conversar não só com o governo dos talibãs como se negou aos esforços de paz de Saddam Hussein e de seu segundo, o católico Tarik Azis.

Tantos gastos militares, tanto sangue derramado, tantos jovens norte-americanos mortos, se, depois de tudo, virá a derrota, disfarçada em conversações de paz, como ocorreu no Sudeste Asiático. O outro reparo é o de que, por mais volteios retóricos faça, ao procurar entendimentos com os talibãs, os Estados Unidos confessam que perderam a guerra. Uma guerra só é ganha quando obrigamos o inimigo a aceitar a nossa vontade. Isso não ocorreu no Iraque, onde a resistência continua firme, nem no Afeganistão, onde os talibãs, a cada dia mais, obtêm apoio maior da população e conseguem maiores resultados militares.

Os Estados Unidos perderam outra guerra, e continuarão perdendo as que virão, até que o seu povo expulse os banqueiros e os generais do poder que exercem - mediante seus prepostos políticos.

Tags: Obama, guerra, mauro santayana, talibãs

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