Jornal do Brasil

Quarta-feira, 18 de Julho de 2018 Fundado em 1891
Coisas da Política

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Tereza Cruvinel


Meias palavras

Jornal do Brasil

O “encontro com os presidenciáveis” promovido ontem pela CNI permitiu que seis deles fossem ouvidos em sequência, no mesmo dia, sem pautas propostas pela imprensa, embora tenham dado entrevistas coletivas depois. E viu-se que, mesmo falando a um público ávido por promessas de reformas – que o presidente da entidade, Robson Andrade, chamou de “carro chefe do novo tempo” – eles evitaram detalhar suas propostas. Quem expôs com mais clareza as linhas gerais de um programa de governo foi Ciro Gomes. Marina também foi sincera ao defender ajustes na reforma trabalhista mas não a vaiaram como fizeram com Ciro, pela mesma razão.

Fora Henrique Meirelles, que tocou exatamente a música desejada, os outros ficaram em meias palavras, e isso também é fruto da estranheza da campanha. Com o eleitorado tão refratário e desconfiado, com até 40% prometendo votar nulo, em branco ou em nenhum dos que estão aí, os candidatos evitam dizer claramente o que pensam. Discursos muito assertivos podem impedir a conquista de eleitores que, por sua vez, também não estão explicitando suas demandas. 

A ausência de um representante do PT limitou os objetivos do evento. Afinal, Lula é favorito, tem 30% nas pesquisas. Preso, não poderia comparecer mas, se tivesse havido convite, o partido teria enviado um dos coordenadores de campanha, dizem os petistas. Talvez tivessem ouvido Fernando Haddad, cada vez mais pule de dez como plano B. A senadora Gleisi Hoffmann protestou em nota contra a exclusão. 

Alckmin abriu a sequência dizendo ter reunido os melhores quadros para elaborar “todas as reformas macro e microeconômicas”, e louvando a trabalhista. Mas tudo no genérico. Foi aplaudido ao prometer reduzir o imposto de renda das empresas, embora sem dizer como compensaria a perda de receita. Seria hora de prometer também uma medida de grande justiça tributária, a taxação dos dividendos e dos juros sobre capital próprio. Foi mais cauteloso na pregação das privatizações. “Com um bom modelo, discutido com a sociedade e o Parlamento”.

Marina Silva criticou “aspectos draconianos” da reforma trabalhista, que teriam de ser revistos. Agradou defendendo rigoroso controle do gasto público, pregou a redução de juros ao consumidor e mais investimentos em inovação e tecnologia. Não deu para saber que reforma previdenciária ela faria.

Jair Bolsonaro foi aplaudido dez vezes, o que é difícil de compreender, tendo ele confessado sua ignorância em economia. Desviou a bola para o STF, que o presidente deveria impedir de continuar legislando, e prometeu colocar generais em ministérios. Nada de específico sobre reformas. Os aplausos talvez tenham sido um treino dos empresários para o caso de terem de apoiá-lo contra o PT no segundo turno.

Meirelles foi só autoelogios: o país cresceu com Lula porque ele era presidente do Banco Central. Temer reverteu a recessão porque ele era ministro da Fazenda. Quando começar o horário eleitoral, as pessoas vão reconhecer sua capacidade, e com a força do MDB, ele vai ganhar. Foi o único a defender a reforma previdenciária proposta por Temer.

Ciro lembrou aos industriais que nos anos 80 o setor respondia por um terço do PIB, fração que hoje é de 11%. Mostrou que o populismo e outros ismos têm nos levado à alternância entre ciclos não sustentáveis de crescimento, seguidos de recessão ou inflação. A eleição tem que resultar num projeto nacional de desenvolvimento. “Não é estatismo, é planejamento”. Sua reforma previdenciária seria debatida coma sociedade. Silêncio sintomático quando disse que há um “quadrilheiro na Presidência”. E ruidosa vaia quando disse que reveria parte da reforma trabalhista.

Por fim, Álvaro Dias defendeu uma reforma política não detalhada e fez discurso fiscalista mas também não detalhou reformas. 

Quando o horário eleitoral começar eles não serão absolutamente sinceros mas terão que ser mais específicos.



Tags: bolsonaro, eleições, marina, política, stf

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