Jornal do Brasil

Segunda-feira, 16 de Julho de 2018 Fundado em 1891
Coisas da Política

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Tereza Cruvinel


Sobre os custos

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O mundo treme com o ataque americano à Síria e aqui seguimos entre os escombros de uma guerra santa particular, contra a corrupção.  Esta agenda que há quatro anos impera no Brasil impôs-se também em outros países latino-americanos, impulsionando a restauração conservadora que deles removeu governos de centro-esquerda hegemônicos desde o fi nal dos anos 90.  Apesar de seus méritos, os custos têm sido elevados, e diante deles o ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda lança a pergunta: “A cruzada contra a corrupção na América Latina terá ido longe demais?”  

A luta contra a corrupção foi tema da Cúpula das Américas encerrada ontem em Lima com a assinatura de um documento protocolar. Alguns dos governantes presentes enfrentam denúncias e são meros espectadores de ações conduzidas pelo Judiciário, como é o caso do presidente Temer.  

No Brasil o ex-presidente Lula está preso, embora lidere as pesquisas eleitorais; no Peru, o ex-presidente Kuczynski renunciou; o vice-presidente do Equador, Jorge Glas, também está preso; na Argentina, a ex-presidente Cristina Kirchner responde a processo; e no México a disputa presidencial é um campeonato de acusações. Esquemas poderosos, como o da Odebrecht, foram desvendados, e dezenas de políticos alvejados. Estes resultados, entretanto, têm cobrado uma conta alta dos países da região, fragilizando suas economias e ameaçando suas democracias, embora a corrupção se mostre resili ente.  Deste balanço é que trata Jorge Castañeda no artigo publicado anteontem pelo Th e New York Times, em que pergunta: 

“A questão hoje não é se o esforço contra a corrupção na América Latina continuará, nem se representa uma mudança radical no procedimento operacional padrão da região. Ambas as declarações são inegáveis. Mas o surgimento de demagogos anticorrupção ou o descrédito do governo democrático que esses escândalos trazem não são mais prejudiciais do que o próprio pecado original?” 

Sem mencionar o nome de Sérgio Moro, ele diz: “No Brasil, onde juízes independentes exerceram um impacto direto sobre o processo eleitoral, não abriram o caminho para agitadores extremistas, como o candidato conservador Jair Bolsonaro, ao mesmo tempo em que tornavam o país ingovernável?” 

Ninguém é a favor de que a corrupção seja tolerada mas as formas de combatê-la e a duração dos processos precisam levar em conta as consequências.  O rumo está correto, ele conclui, mas os resultados duradouros só virão com a construção de instituições permanentes de combate à corrupção. 

A Lava Jato, já sou que digo, até agora não nos legou nenhum instrumento desta natureza.  Os recursos desviados que recuperou pouco signifi cam diante da quebra das empresas nacionais de infraestrutura, com a perda de milhares e empregos e o agravamento da recessão, do desestímulo aos investidores e da crise política que descambou para uma ruptura institucional dissimulada. 

Quando vazou ilegalmente os grampos da conversa Lula-Dilma, para impedir que virando ministro ele pudesse evitar o impeachment, Moro começou a fazer política com a Lava Jato.  Conduziu o processo de Lula como um caçador obstinado. Ganhou. Mas até quando vai a Lava Jato?  Se ela continuar no comando da agenda política, nem a eleição vai nos tirar da crise.

FRENTE AMPLA 

Na terça-feira, PT, PC do B, PSOL, PSB e PDT lançam na Câmara a Frente em Defesa da Democracia, da Soberania e dos Direitos Humanos. Por ora, trata-se de um mutirão contra o vento autoritário, não de uma frente eleitoral, de construção bem mais complicada. 

APARELHADA 

O Planalto tenta explicar a nomeação do embaixador Parola para presidente da EBC: como porta-voz, ele aprendeu muito sobre comunicação governamental. Mas a EBC é agência de comunicação pública, conceito que o governo ignora. Deviam agora chamar a TV Brasil de TV do Temer, pois a isso é que foi rebaixada.



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