Jornal do Brasil

Quarta-feira, 20 de Junho de 2018 Fundado em 1891
Coisas da Política

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Tereza Cruvinel


Qual é o rumo?

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Passaram-se duas semanas desde que foi assinado o decreto de intervenção federal no Rio, com sua torrente de expectativas e receios, indagações e questionamentos. As cobranças por maior clareza sobre como funcionará a intervenção são frequentemente desqualificadas como manifestações de preconceito contra as Forças Armadas ou como retórica fácil de opositores do governo. Mas é espantoso que, nesta altura, o povo do Rio não saiba o que será feito, não conheça o plano diretor da intervenção, para além de operações pontuais em comunidades, como a de sábado, em Vila Kennedy, quando 720 moradores e 330 veículos foram revistados. Desta vez sem fotografias e fichamentos. 

A preocupação com a emergência do poder militar é natural num país que viveu uma longa e nada branda ditadura. Foi ampliada por Temer com a indicação do general Braga Neto como interventor, que indicou o general Richard Nunes como secretário de segurança. Temer ainda quebrou o acordo tácito entre as três forças, pelo qual o titular do ministério da Defesa seria sempre um civil,  ao nomear o general  Silva e Luna como interino.  Agora quer consertar o erro mas já enfrenta pressões para mantê-lo. Mas, por ora, não parece haver nada além de conveniências. Temer busca a sombra dos quepes para compensar sua própria fragilidade,  buscando sorver o prestígio das Forças Armadas. 

Outra coisa é o funcionamento prático da intervenção, que não foi esclarecido pelo general interventor em sua primeira e controlada entrevista. Temer,  a quem ele responde diretamente - embora na prática a supervisão esteja delegada ao ministro Raul Jungmann - é palavroso quando elogia a iniciativa mas nada diz sobre os rumos da intervenção. Ou o governo ainda não tem de fato um plano, ou o tem omitido da população.  Alguma luz veio do Secretário de Segurança, que em entrevista ao Globo,  falou de ações nos campos econômico, social e político, para além da repressão armada, que por si só, disse ele, não resolverá o problema. É isso que cobra a maioria dos cientistas sociais especializados na questão de segurança. 

A intervenção está sendo, assim, uma troca de pneu com o carro andando.  As tropas se movimentam, fazem ações aqui e ali, enquanto os superiores elaboram o plano que não existia quando Temer optou pela intervenção. Apesar desta névoa, há uma torcida pelo sucesso da experiência.  Em 15 dias não se elabora um plano ambicioso e consistente, assim como em dez meses não se consegue resultados estruturantes.  Se eles não vierem até setembro, a população terá motivos para sentir-se iludida e descontar nas urnas.

A OPÇÃO CELSO 

Depois que o próprio ex-presidente Lula, em sua entrevista à Folha de S. Paulo, deixou claro nas entrelinhas que acatará eventual inabilitação eleitoral pela Justiça, lançando, neste caso, um candidato a quem tentará transferir seu favoritismo, a hipótese de que este nome venha a ser o ex-chanceler Celso Amorim ganhou força dentro do PT. Contido, como a situação exige, agora ele não se movimenta nem mesmo como eventual candidato a governador do Rio. Mas no PT, o inventário sobre as vantagens de seu nome só cresce. É “ficha limpa”, não respondendo a inquéritos como Wagner e Haddad. Tem o melhor perfil para liderar o que vem sendo chamado de “agenda da soberania”, algo além do nacionalismo antiquado, combinando propostas para a restauração do desenvolvimento nacional com a reinserção do Brasil no cenário global com o protagonismo a que faz jus.  Se lhe falta experiência eleitoral, sobram qualidades que podem atrair eleitores mais próximos do centro, devolvendo ao PT as franjas da classe média que conquistou em 2002 e começou a perder em 2005.  Mas ganhou força também, como “tertius”, o nome do ex-ministro Patrus Ananias.



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