Jornal do Brasil

Sexta-feira, 22 de Junho de 2018 Fundado em 1891
Coisas da Política

Coisas da Política

Tereza Cruvinel


Lugar da política

Jornal do Brasil

No Jornal do Brasil que hoje ressurge impresso, este será, como em outros tempos, um espaço reservado à decifração dos signos da política, à análise e à interpretação dos fatos reportados como notícia. Ocupá-lo, neste momento delicadíssimo para o Brasil e para o Rio, é desafi o  que assumo com reverência a seu signifi cado na história do jornal e à memória de quem nele escreveu por 30 anos, o mestre maior do colunismo político, Carlos Castello Branco.

Traduzir o jogo político nunca foi fácil num país como o Brasil, em que a própria República nasceu de uma quartelada, abrindo a sequência de crises, golpes e sobressaltos, alternando ciclos autoritários com experimentos democráticos. Agora, este período mais longo de democracia que sucedeu à ditadura está sendo testado ao máximo, estressando as instituições no limite da anomia.  A crise política conjugada com o revés econômico, a ruína do sistema herdado de 1988 e a inegável falência das elites pintam um quadro sombrio e dramático. 

Não menos delicada é a situação do Rio de Janeiro. A corrupção foi elemento importante, mas não único, no processo de falência do estado. A queda nos preços do petróleo e o desarranjo em sua cadeia produtiva, a partir da Lava Jato, também facilitaram o açoite da recessão. Com ela vieram a ruína fi scal, os atrasos no pagamento de servidores e fornecedores e o aumento do desemprego, criando a pastagem ideal para o avanço do tráfi co e da violência. A incapacidade do governo estadual para enfrentar a situação fi cou patente há algum tempo, exigindo uma atitude do governo federal. A intervenção, apesar do improviso, do temerário emprego das Forças Armadas e dos riscos de fracasso, neste momento conforta boa parte da população. O que o Rio não pode aceitar é que ela seja mesmo o plano eleitoreiro e populista de que se tornou suspeita, depois que o marqueteiro do presidente da República confi rmou sua candidatura à reeleição. Um povo já tão castigado não merece um estelionato eleitoral em que, passado o pleito, tudo volte a ser como antes.  Ou pior. 

Mas é alvissareiro que, em hora tão crucial ressurja, na concretude do papel, um jornal que carrega, como o JB, a marca do pluralismo, da liberdade de expressão e da inovação. O Brasil da polarização raivosa precisa reaprender o convívio na divergência e libertar-se das bolhas de pensamento único. São compreensíveis o pessimismo e o desalento dos brasileiros, que nas pesquisas chegam a manifestar descrença na democracia. Foram muitos os descaminhos recentes mas a hora é de olhar para a frente,  Estamos a sete meses de uma eleição geral que pode devolver ao povo a oportunidade de escolher governantes e renovar o Congresso, ditando um caminho legítimo a ser trilhado. 

Numa conjuntura tão complexa, mais exigidos devem ser os que se arriscam como analistas. Espero corresponder, na medida da minha experiência e das minhas limitações. Os leitores do Rio me conhecem de longa data. Escrevi por mais de 20 anos uma coluna política em O Globo. Foi a partir da TVE do Rio que liderei a implantação da TV Brasil. Mineira, radicada em Brasilia, atei-me para sempre ao Rio desde quando aqui vivi na clandestinidade, durante a ditadura. Aqui tenho uma segunda morada. Acredito em dias melhores para o Brasil e o Rio.

Ao mestre, com carinho

Castellinho foi único e insubstituível e por isso não usaremos o título “Coluna do Castello” mas o “Coisas da Política”, da coluna de segunda-feira, quando ele folgava. Dele fui e continuo sendo aprendiz, como nos anos 80, quando ele era um monstro sagrado e eu uma jovem repórter treinando como colunista. 

Generoso, ele me incentivava, elogiando uma nota ou enviando um bilhetinho. “A coluna está indo bem mas aumente a nota de abertura”. Os mais jovens e os saudosos podem visitar seu legado no site construído por sua fi lha Luciana, reunindo todas as suas colunas e textos. O endereço é www.carlos castellobranco@com.b



Tags: coluna, cruvinel, jb, política, tereza

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