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Quarta-feira, 20 de Junho de 2018 Fundado em 1891

Ciência e Tecnologia

Alpaca dos Andes será clonada por cientistas peruanos

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A alpaca, um animal venerado pelos povos pré-hispânicos dos Andes, é a estrela de um projeto científico que visa a cloná-la para melhorar sua carne de baixo colesterol e sua lã, apreciada no mundo todo.

Um grupo de cientistas da Universidade Nacional Mayor de San Marcos do Peru, a mais antiga da América, trabalha neste projeto que pretende criar alpacas de alta qualidade através da manipulação de embriões.

"Cada alpaca fêmea tem apenas um filhote em 12 meses de gestação, mas ao dividir um embrião em dois se tem a possibilidade de ter dois filhotes em um ano, de excelente fibra e carne, para o que se emprega uma mãe original e outra de barriga de aluguel", explica à AFP a bióloga Martha Valdivia, que lidera o projeto.

A alpaca, a vicunha, a lhama e o guanaco são os camelídeos dos Andes. Devido às quedas bruscas de temperaturas em zonas altoandinas, existe muita mortalidade embrionária.

A alpaca era muito apreciada pelos povos andinos pré-hispânicos por ser um animal doméstico dócil, diferentemente da vicunha e do guanaco. Além disso, sua lã é melhor que a da lhama.

"A clonagem permitirá que os criadores de alpaca melhorem a produtividade tanto em quantidade como em qualidade", detalha Valdivia.

O sistema consiste em tentar simular nas alpacas um processo natural que ocorre nos humanos, quando há gêmeos. "Mas com o fator adicional de que este camelídeo representa maior dificuldade reprodutiva que o humano", explica a especialista.

"Nosso objetivo é produzir os primeiros clones em três anos, conseguir ao menos em um primeiro momento dois clones. Este laboratório está equipado para fazer toda a reprodução de alta complexidade e para que se possa aplicar à conservação de espécies", afirma.

- Células em nitrogênio líquido -

Dos 17 departamentos peruanos com população de alpacas, os cientistas escolheram Huancavelica (sudeste) porque tem uma maior variedade do camelídeo e de genes. Também porque existe um matadouro municipal modernizado, aonde chegam diariamente exemplares para ser sacrificados para o consumo humano.

"Nós utilizamos os adultos. É feita uma seleção de qualidade dos testículos e dos ovários para separar os melhores em termos genéticos. Por exemplo, se chegam nove ou dez, escolhe-se os três melhores para extraí-los e realizar os estudos", diz Valdivia.

Os testículos e ovários selecionados são trasladados à universidade em câmaras especiais, para depois no laboratório isolar seus espermatozoides. Após um estudo rigoroso, os de maior qualidade genética são escolhidos, congelados e guardados em tanques de nitrogênio líquido para conservar as células em uma vida suspensa.

- Depois, os guanacos -

Peru é o maior produtor de lã de alpaca do mundo, ao abrigar 87% da população global, seguido da Bolívia com 9,5%. A produção anual é de 4.501 toneladas de fibra, segundo o Ministério da Agricultura.

"Deve-se proteger este camelídeo que é altamente valorizado internacionalmente por sua fibra e que beneficia milhares de criadores diretamente", acrescenta o ministério.

O Peru conta com cerca de 3,8 milhões de cabeças de alpaca. Os departamentos de Puno e Cusco concentram a maior população, 1,5 milhão e 545.000, respectivamente. São seguidos por Arequipa com 468.000, Huancavelica (308.000), Ayacucho (230.000).

A carne de alpaca é muito apreciada por ter alto conteúdo nutritivo e ser saudável por sua baixa quantidade de colesterol. É similar a outras carnes vermelhas, como as de vaca e ovino.

"Depois de clonar alpaca poderíamos fazer isso com o guanaco, que está em perigo de extinção no Peru; a vicunha, cuja fibra é a de melhor qualidade no mundo; e as lhamas, que são um camelídeo que os moradores usam como animal de carga e para consumo de sua carne", indica a especialista.

- Falta de recursos -

Valdivia explica que devido à falta de recursos da Universidade de San Marcos para financiar o laboratório, a equipe buscou concursos de fundos públicos com fins científicos.

"Com o financiamento da Innovate Peru, do Ministério da Produção, conseguimos adquirir equipamento especial único no mundo, mas ainda falta financiamento para os passos seguintes", diz.

Até agora se investiu um milhão de soles (cerca de 306.000 dólares). "Faltaria mais um milhão de soles para os insumos e os materiais".

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Agência AFP


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