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Domingo, 24 de Junho de 2018 Fundado em 1891

Ciência e Tecnologia

Técnica de diagnóstico de Chagas identifica variações genéticas

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O teste laboratorial mais utilizado para detectar a doença de Chagas, enfermidade causada pelo Trypanosoma cruzi, é o Elisa, que usa partes deste protozoário para a pesquisa de anticorpos específicos circulantes no sangue. No entanto, os testes que usam este tipo de material muitas vezes fornecem resultados falso positivos ou falso negativos, além disso, o Elisa detecta apenas uma única doença por vez. Um estudo coordenado pelo pesquisador da Fiocruz Bahia, Fred Luciano Neves Santos, avaliou uma nova técnica que permite a identificação de várias doenças e diferentes variações genéticas do Trypanosoma cruzi, em apenas um teste, cujos resultados indicaram uma precisão diagnóstica global superior a 99%.

O trabalho, realizado em conjunto com pesquisadores da Fiocruz Paraná, Fiocruz Pernambuco e o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz), foi publicado no Journal of Clinical Microbiology, no artigo intitulado Performance Assessment of a Trypanosoma cruzi Chimeric Antigen in Multiplex Liquid Microarray Assays. A publicação apresenta uma parte da pesquisa que busca biomarcadores diagnósticos. A nova técnica também apresenta maior sensibilidade, podendo identificar a doença com poucos patógenos circulantes.

"O interessante é que várias doenças sejam identificadas ao mesmo tempo em um único teste. Uma alternativa para alcançar este objetivo é o microarranjo líquido, conhecido como Luminex. Neste novo teste, nós preferimos utilizar proteínas sintéticas (quimeras) formadas por diversas partes do parasita. Esta estratégia já foi realizada e verificada anteriormente pelo Elisa, com excelentes resultados”, declarou Fred Luciano. Essas quimeras podem vir a substituir os antígenos atualmente usados no mercado para ensaio e testes, já que obtiveram desempenho que atende aos critérios pré-definidos pelo Ministério da Saúde.

Para o estudo, foram utilizadas 1.333 amostras de sangue de indivíduos de diversas regiões do Brasil e de outros países das Américas (653 indivíduos portadores da doença de Chagas e 680 não infectados), para avaliar o desempenho dessas quimeras na detecção de anticorpos para o T. cruzi e verificar o desempenho em variantes genéticas. De acordo com o pesquisador, a utilização de quimeras produzidas a partir de regiões altamente antigênicas do parasita é mais eficaz para diagnóstico da doença do que os utilizados atualmente, aumentando a sensibilidade e especificidade do teste.

Entretanto, a utilização dessa tecnologia nos serviços ambulatoriais e diagnósticos pelos serviços de saúde públicos do Brasil pode se mostrar um desafio, mesmo que a patente pertença a Fiocruz. Segundo Fred Luciano, o teste Elisa ainda é mais barato. “Esse é um caminho normal. Quando a metodologia do microarranjo líquido for popularizada, tende a baixar o valor”, relatou. O equipamento do teste Elisa custa de R$900 até R$ 60 mil reais. Já o equipamento para testes em microarranjo líquido tem o custo de até R$300 mil, mas apresenta maior eficiência para identificar diferentes variações genéticas.

Doença negligenciada

A doença de Chagas (ou Tripanossomíase americana) é uma doença negligenciada, transmitida não apenas pelo barbeiro, mas também pela transfusão de sangue, ingestão de alimentos contaminados, de forma congênita e pelo transplante de órgãos. Por conta das migrações de indivíduos infectados provenientes de áreas endêmicas, a enfermidade chega a regiões não endêmicas na Europa e na Ásia. Em países onde a doença de Chagas é endêmica, o teste para diagnóstico é obrigatório para prevenir a transmissão através da transfusão de sangue. Estima-se que 90% dos infectados desconhecem que são portadores do Trypanosoma cruzi, pela falta de diagnóstico da doença que é endêmica em 21 países das Américas.

De acordo com o Ministério da Saúde, a doença apresenta uma fase aguda que pode ser sintomática ou não, podendo evoluir para as formas crônicas caso não seja tratada precocemente com medicamento específico. Superada a fase aguda, aproximadamente 70% dos infectados evoluirão para uma forma indeterminada, sem nenhuma manifestação clínica da doença de Chagas e com exames complementares sem alterações. Os demais, desenvolverão formas clínicas crônicas, divididas em três tipos de acordo com as complicações apresentadas: cardíaca, digestiva ou cardio-digestiva (mista).

Agência Fiocruz



Tags: chagas, doença, genética, ministério, teste, variações

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